terça-feira, 17 de maio de 2011
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DGCI - Gabinete das Cobranças coercIVAS
Exmº Sr. Mello & Patuleia,
No articulado do novo regimento de taxas coercivas, vimos por este meio informá-lo que procederemos à cobrança dos impostos que o usuário se esquivou a pagar, no âmbito deste seu blog. A saber :
artº1. Imposto sobre Blogs
Na sequência do surto bloguista, este Ministério emanou uma portaria que obriga todos os detentores de blogues a pagar por cada linha escrita. A razão para tal decisão é a de que enquanto estão a escrever não pagam impostos, não estão a consumir (pagando IVA, claro), não estão numa repartição pública a pagar emolumentos, não estão a andar de carro (fugindo às operações da GNR, portagens ou parqueamentos) , etc,etc.pelo que é devido 1€ por cada linha escrita.
(NOTA: como não tenho tempo para andar a contar linhas, este é um imposto de auto-declaração sob compromisso de honra com apostilha por trás, pelo que o post, o blog e o PC deverão permanecer inviolados por um período de quatro anos para posteriores fiscalizações,ou como ora se roga - para memória futura).
artº2. Imposto sobre ideias
Uma vez que este é um país de poetas, políticos (leva vírgula), panascas , sábios, comentadores e espertalhões, a melhor forma de combater o défice é taxar a idiotice, já que é um recurso abundante. Dessa forma, a portaria vem taxar cada ideia em 5€, estando esta sujeita à retenção na fonte-da-telha. Deduzem-se na totalidade as ideias impossíveis de serem aproveitadas pela oposição.
artº3. IVA sobre os Blog hosting tools (mas que caralho quer isto dizer?)
Estando qualquer actividade sujeita a IVA (esperem lá que já estão a ser aferidos e calibrados os contadores de oxigenio que passarão a ser de uso obrigatório), não esperavam que o alojamento de blogues fosse gratuito, não? Assim sendo e uma vez que o Blogspot é estrangeiro mas o consumo efectivo é realizado em território nacional, fazfavôo de passar os 19% de IVA sobre o custo da ligação ao alojador.
artºFinal. Pelo uso de nick-name, ao abrigo do qual muita distinta personalidade quer passar incólume e por essa via caluniar os distintos eleitos públicos, será o IP tributado em função da grandeza histórica do nick utilizado, assim como titulares de brazão, heráldica ou patronímicos familiares reconhecidamente ligados a lobbies empresariais no espaço Shengen (ó chefe de gabinete, é assim que se escreve esta bodega?), numa fórmula onde o coeficiente acumula os donativos gentilmente ofertados aos arrumadores de veículos, as gorjetas dados nos Casinos e o caviar adquirido em zonas francas.
*Assim, como utiliza o nick Patuleia, sugere o meu acessor cultural que omita tal apelido subversivo pois o momento actual do país é pacífico e nada justifica o seu uso. De igual modo, como Mello é nosso parceiro estratégico na gestão hospitalar, banca , seguros e imobiliária, importa não fazer uso de tamanhas sinergias (que vocábulo bonito! arre!) para mobilizar o cidadão capitalista da classe média na compra de participações ou acções da futura privatização da função pública.
Tem 2 dias para pagar todos estes impostos em atraso, sob pena de me ver a tocar à porta de sua casa devidamente vestida de negro e equipada de pasta cobradora.
O não pagamento obriga ao cumprimento de 30 dias de serviço militar no Iraque , 45 em Kabul ou 69 em assessoria ao Ministro das Tropas.
Lisboa, este Janeiro de 2004
Nelinha deLeite and Shift.
(Cobradora do fraque - cobranças fraudulentas)
------------------------------------------------------------------------------ 14/01/2004
Não posso dizer que foi um agradável encontro a última vez que me cruzei com o Picantino.
Algures na calçada, o fulano tropeçou no calcário e saudou-me com uma ternurenta marrada no peito, logo disso se queixando o meu Siemens com um polifónico Cucaratcha... Do alto das suas cinco polegadas de tacão sorriu-me; é como ter a Gioconda a fitar-nos...agora ponham-lhe uma barbicha e uma bateria duracell. Eis o Homem!
Verborreou, sacudiu, linguajou, apenas retive a sua enorme frustração pelo facto de nem de pão nem de circo se alimentar este povo. Não posso deixar de lhe dar razão - os dez novos circos construidos para o Euro 2004 não são para a peida dos mais comuns dos pelintras que afogam as mágoas na bola e ali têm ido declamar a mais vernácula das sebentas de maldicência; quanto ao pão,antevê-se muito marmelo entre os patas negras nas planícies alentejanas disputando bolota para casa. O Picantino tem razão - enquanto os compadres comunitários virão ao Euro disfrutando de pacotes promocionais com bilhetes para os jogos, deslocações a Bragança, feijoada, migas e farófias incluidas, o saloio cá do torrão vai sentar-se no banquinho ao fundo do quintal pasmado, vendo as uvas crescer ou se mais abastança tiver, pode agarrar na "bicicleta a pedal" e escorregar Via Norte abaixo até Pedras Rubras para ver os passarinhos da Boeing pousar. Depois do tempo de antena que teimo em conceder às minorias , foi com alívio que o vi partir esbaforido, qual meretriz desenfreada em busca do espertinho da nota falsa.
------------------------------------------------------------------------------- 12/01/2004
Típico princípio de noite angrense.
Vento forte, frio.
Lembra-me as fustigadas Rua do Galo abaixo.
Falta o cheiro a maresia, a pacatez da Praça Velha, a canalha a correr para a Fanfarra Operária, o gemido longínquo da bombaria, o saudar do TerrAlta no porto das pipas, o preguiçoso voo das cagarras, os piropos ao zé-greta.
É a doce presença do distante passado que saúdo.
---------------------------------------------------------------------------------- 07/01/2004
Hoje não é o meu dia, nem dia para mim.
Dedico-o a ti mãe -
estar contigo continua a ser
tão seguro como dormir na palma de Deus.
----------------------------------------------------------------------------------- 03/01/2004
Tem a malícia castiça da tasqueira portuense e alberga o gene mau desde que a bisavó galesa foi escovada pelo rapaz das cavalariças. Esta bisneta teve sorte difente - nubeou de penalti, coisa de decisão meteórica ou neste momento estaria a jogar no meio campo aguardando a entrada do oponente em cena , dá-se pela graça de Mijardina Salgado, uma meia cota dada a excentricidades - três animais exóticos, um melga bissexual , um cão judeu circuncisado e uma rã que toda a noite arrota (não inventariando o delinquente de cabeção, o tal que ludibriou meia plateia causando a penalidade). As excentricidades desta boémia tripeira são de vasto rol e a debilidade das suas meninges cruzou oceanos. Não dispensa o uso da túnica urdida pelas névoas magrebinas, o bailar da ossatura sob o casaco de pele de macaco narigudo , fazer tomografias computorizadas para dar a conhecer a sua beleza interior ou o sabonete de alumínio pela manhã. Os anos passam e o tal gene mau já faz estragos - almoços transgénicos, chá de malte às cinco na Batalha, bio-desnatado no Aliados, seis e meia nos Clérigos aprumada pró delinquente almofadar as falanges. Escultura o body num fitness manhoso qual tertúlia assídua de meliantes bronzeados.Ontem Mijardina não faltou à inauguração do Estádio do Dragão e colerizou com os primeiros torrões do bonito relvado. Na bancada Vip culparam as toupeiras infiltradas pelos mouros; ela diz que foi o R. Rio que arranjou umas "micas" em miniatura que minaram o precioso relvado, outros dizem que foram umas mijadelas dos pretos que andavam lá a trabalhar, os mesmos que mictaram em Alvalade e espalharam o dito fungo escurinho pois a relva, quando se vira ao contrário, fica da cor dos malvados que lá deitaram o referido animal. A noite terminou linda com o fogo, ainda que Mijardina e seus meliantes preferissem o genuíno, aquele do hálito dos sáurios, tão calorífico quanto o bagaço do Bar do Piruças que a acolheria duas horas depois. (Ah...o Piruças é um ex-corsário de Bornéu que apanhado por uma tsunami quando surfava em bambus, chegou A-ver-o-mar).
----------------------------------------------------------------------------------- 26/12/2003
Para o irmão a quem não chego,
ao sogro que já não brindo,
à avó que nos deixou,
à família que por aí festeja,
aos amigos a quem não tive tempo de pedir para serem felizes....
(boas festas) apenas um velho hino sobre o berço.
------------------------------------------------------------------------------------ 22/12/2003
" A Vinícius de Moraes"
Por que é que fomos feitos?
Ao nascer somos saudados
ao longo da vida lembrados
- até que a luz se apaga.
A vida, um leve pisar
um rápido caminhar
- atrás de tudo ou do nada.
A terra cavada a dedos
abafa nossos segredos
- como as contas de um terço.
Fazem-nos versos de dor
cantam-nos com tanto amor
- como nos fazem no berço.
Adeuses de longo braço
não há mais nada a dizer...
A vida fez-se a fazer
o espaço de quem parte.
-------------------------------------------------------------------------------- 10/12/2003
Pelo caminho da estrela.
Este ano não vou...
Não vou pegar nos caixotes
armar a escada, pendurar fitas e berloques
não vou colocar a estrela no lugar dela
nada de luzes,anjos ou a chama duma só vela.
Este ano não ...
Neste Natal não quero a estrela sem brilho
nem esta idade de memórias.
Da janela, na noite, seguirei o trilho
das palavras simples, das mais belas histórias.
Este ano, às moradas do tempo não vou
de encontro à identidade viciada,
não quero ser o mesmo que, no sapatinho tudo procurou
ou o homem das barbas que tudo deu ou não deu nada.
Este ano não vou...deixar que a Lua se levante,
nos deixe no delírio mergulhados
dum calendário que nos arrasta e faz estragos
com o olhar parado na lareira fumegante.
Este ano não sou...
-------------------------------------------------------------------------------- 09/12/2003
Não escrevi.
Esta página esteve em silêncio.
Não se me esgotavam os motivos para o texto
mas este silêncio é o entendimento que possuo sobre a regeneração da vida.
É o Outono, também da prosa,
é o perscrutar dos genes que se negam à multiplicação.
É o definhar dos sóis.
Caíu a noite
- encosto a cabeça à vidraça,
arrumo a espuma do dia
e continuo trabalhando o silêncio...
-------------------------------------------------------------------------------- 03/12/2003
Morreu a avó. O meu mundo ficou mais pequeno.
Carrego o peso desta morte.Dos pequenos e grandes gestos da avó.
Não há gritos ou choros alojados na minha alma. Apenas a saudade, o gosto adocicado da sua presença.
Alguma da minha juventude foi vivida com a presença e o magistério da avó Clementina; seus doces abraços, suas palavras sempre amigas e confortantes, seus sorrisos cândidos e breves - por isto te agradeço avó.
Recordarei os aromas dos teus cozinhados, a suavidade da tua pele, a religiosidade das tuas acções, a sabedoria dos teus conselhos, a paz do teu olhar...
No "meu" cancioneiro açoriano haverá sempre o teu lugar .
Estarei de luto para sempre; até nos juntarmos, avó...
-------------------------------------------------------------------------------- 08/11/2003
da blogosfera....
Nem tudo que se lê por aí nos blogs constitui uma montra de vaidades ou uma fogueira de ousados. Certo é que os Weblogs se reproduzem como coelhos... Começam a explodir “sociedades bloguistas”, irmandades. Mulheres que falam de homens, homens a escrever sobre mulheres, umas a falar mal de outras e aínda há quem diga mal de si no seu próprio blog. Agrada-me este fenómeno que colocou milhares de portugueses a escrever. Seguem-se E-mails com elogios, ameaças de morte, ciúmes, críticas, dando vida própria ao blog. Há gente que comenta tudo, jornais, notícias, política, resultados desportivos, estilos, imagens, templates... Além de retratar a vida das pessoas, aparecem links para sites, fotos, músicas, filmes, mulheres , montes de assuntos, brotando weblogs temáticos, separados por género, amizade, vontade, mania, trabalho ou até os sobre nada. Uma certa concorrência... As fotos, ah...- sites com rosto. Ensaios... Ruas, praias, crónicas, humor, praças, assembleias,poesia, multidões, figuras públicas, anónimos, ignorados, falecidos,drama, deificados, mártires, desgraçados, vilões, réus, arguidos, mitos, vítimas, ciência, traições, sonhos, paixões, música ou silêncio. Com toda esta diversidade e riqueza, a explosão blogográfica criou o subúrbio blogueiro, o bairro da lata, a favela, o bidonville, the shantytown. Cria-se o hábito diário de visitar aquele blog como se fossemos bater à porta do vizinho; é um querer saber como está, o que o incomoda, se viu, sentiu, leu e reagiu. Passeia-se por páginas de escrita escorreita, lúdica ou requintada. Evitam-se links de gosto duvidoso, ruelas sem sentido nem propósito.É um universo; é melancólico, é nostálgico, é engraçado, é irritante... É o arquivo de muitas vidas, intimidades e pontos de vista. É, e ponto.
---------------------------------------------------------------------------------- 07/11/2003
O OUTRO NOME DA ROSA
Olhou o calendário com indiferença. Tanto se lhe dá...não imagina outro ciclo que não este. Uma rotina amnésica e indolor- acordar-defecar-lavar-depilar-comer-vestir-trabalhar. Ahhh...vida odiosa, repleta de terrores com curtíssimos intervalos de prazer. Espreitou o espelho e pareceu estar na frente de um menir. Não retocou absolutamente nada. Quase perfeito, quase inerte, quase,quase para ser um pouquito mais do que aquele nada com quem coabita todas as alvoradas. Quase forçado a chorar baldes e baldes por razões nada aparentes . Não fossem os delirantes artistas "populares" quais azeiteiros, sempre com duas bailarinas nas espaldas, para dar maior credibilidade ao olival, envelheceria empedernido. Nem as super-modernas mamografias feitas pelos satélites na NASA o convencem de uns saudáveis delírios a que estes loucos nos submetem. Um derradeiro suspiro à porta do emprego. Lança a mão à cinta e sobe as calças. Aguarda a reverência da porta automática. Olha de soslaio a câmara que o filma e enrijece o esqueleto - é ele, o funcionário do número macanográfico , vulgarmente conhecido pelo côdeas. Todo ele é uma única ruga; coisas de feitio...a dedicação ao emprego fez-lhe o carácter e os compromissos com a vida emprestaram-lhe a morfologia.
---------------------------------------------------------------------------------------------- 05/11/2003
......Interioridades.......
Zé Sabonete, autarca de sucesso em Testa Gorda, leva cinco mandatos no papo assim como largos hectolitros de cerveja. É um viúvo pouco cobiçado. A extinta, deixou-lhe uma filha em fraldas, a quem chamam de Pureza. Tornou-se numa rapariga formosa e aos 18 anos é o orgulho do povoado, a hóstia das beatas, a misse dos bombeiros, a erecção dos rapazes. Por agora a satisfação da moça é ser majorete da fanfarra exibindo destreza manual com o bastão de comando, rasgando as ruas com a "bombeirada" atrás, inebriada com tamanhas virtuosidades. Em Testa Gorda diz-se à boca-cheia que a moça tinha pinta para fazer novelas; outros à boca-pequena afirmam que a Purinha já rodou por aí numas do celulóide... Nesta aldeia a única animação nocturna é a tasca do Martelo onde em noite de futebol as mulheres não entram, com medo de ser violadas com uma garrafa de "Sagres". A Barona, dona de respeitosos seios onde os pintassilgos formam alas para empoleirarem, é proprietária do estabelecimento alternativo para os dias sem bola. Empresária de uma firma de aconchegos, dirige meia dúzia de colaboradoras que acrescentam alguns dos piores epitáfios à terrinha . Ela sabe do crescente sucesso da casa e do peso da mesma nas finanças municipais. Ali não há borlas para ninguém, muito menos para funcionários públicos (lê-se no átrio do estabelecimento). Hoje em dia as suas meretrizes frequentam mais a repartição de finanças que os funcionários desta, o Bordel. Famosa pelos seus apetites caninos e consequente flatulência, a Barona é sócia-fundadora e presidente da confraria da biscoitinha. Ao serão, acompanhada das confrades, relaxa de um horrível dia de tédio que a rotina dos desocupados faz acumular, jazendo atrás de um curta mesa de mogno. Atascada num velho sofá com dois palmos de espuma , qual Afrodite entronizada, move-se ao ritmo dos pruridos das micoses nas virilhas ou dos ácaros que guerrilham nas amazónicas axilas. Seu maior desejo é nunca vir a ter a concorrência desses novos bares-de-alterne (ou lá como lhe chamam) onde os machos debutam no Éden quais inocentes mancebos, jogando as noites em troca de casamentos ditos eternos. O que mais lhe faltava era ter as senhoras da terra assinando petições para o Governo Civil exigindo o encerramento da única colectividade de lazer e recreio do povoado. Mas ela confia que os créditos outrora dados às autoridades salvem a firma de aconchegos de um encerramento compulsivo.Entre as mãos tem esta missiva que fará chegar ao supremo edil: - "Aqui na minha desde sempre Testa Gorda onde o vosso amigo e distinto Sabonete nunca entrou nem a Pureza ou outros de bem, apenas catraios ou velhos se divertem trocando momentos de folia e ternura por uns cobres que faço levar religiosamente à tesouraria e que servem Vossa Exª na gestão de nosso município, não permita que agitem cartazes de protesto enchendo a boca de Barona nem que outros do mesmo negócio aqui se instalem. Pelos seus bons ofícios por esta casa, jamais se fecharão para si as portas da biscoitinha. Do meu mais fundo - assina: a Presidente da Confraria ( ilegível )".
----------------------------------------------------------------------------------------------- 31/10/2003
Voltas do mundo
Ao observar o mapa-mundo da National Geographic que se encontra aqui à minha frente sob o vidro desta mesa onde trabalho constato, para tristeza minha, não ter visitado os cinco continentes que se vão mantendo à tona das águas com cada vez mais dificuldade . A Arca de Noé já foi uma imagem mais difícil de visualizar e os "animais" já cá estão todos. Já passeei estes pés por alguns países da Europa e outros fora dela. Tudo isto para dizer que à falta de oportunidades de viajar por esses continentes, vou tentando meter conversa com pessoas originárias de países distantes e ainda por desbravar pelos meus pés. Foi assim que conheci no Verão passado em plena Vila de Lagos, um casal de australianos que percorria o mundo há dois anos de mochila às costas e que julgava já estar em Espanha . Conheci ainda vários paquistaneses, que se julgam cupidos quando interrompem os jantares românticos estendendo umas coisas murchas com caule, muitos espinhos e poucas pétalas que no Paquistão e estranhamente, também aqui se dão pelo nome de rosas. De romenos, ucranianos e moldavos, já lhes conheço a geografia e a biografia - todos são doutores lá na terrinha, deixaram pais, mães e filhos doentes e por cá aguardam trabalho no entretanto de peditórios e bebedeiras. Os mongóis que conheci são verdadeiros descendentes dos hunos, bizarros, sorridentes e hospitaleiros mesmo em país alheio.
E hoje não escrevo mais nada porque às seis da manhã tenho de estar na fila, à porta do Centro de Saúde para marcar uma consulta de clínica geral para a minha bisavó. Ali não me parece que vá conhecer ninguém de outro continente. Por ali estão todos tão murchos como as rosas do paquistanês. São todos portugueses, suburbanos e não sei se perdem tempo olhando o mapa, mas duvido. Vou para a fila na esperança de encontrar um lusitano de uma terrinha escondida no meu mapa.
------------------------------------------------------------------------------------------------- 24/10/2003
Cromo a três dimensões.
É todo ele um belo exemplar de malandrice - Dinis de seu nome - diplomado nos cafés da zona, com mestrado nas discotecas portuenses. Pouco mais de metro e meio de altura recoberto de um vasto tecido adiposo, algum pelo louro, íris azulada, caminhar balanceado e pés fazendo ângulo de 45 graus. É natural de uma terra onde as únicas filas de trânsito são as do gado quando regressa ao cair do dia. Contam as boas línguas que na sua longínqua juventude era dado a galhofas das quais raramente se saía mal. Corpulento, mas de cérebro ainda por calibrar, chegou a ser observado a contar carcaças de trigo que se encontravam num cesto, cerca de 400, sem as remover!!! Hoje é um hipocondríaco da mais fina linhagem, encontrando-se frequentemente nas salas de espera dos mais reles Centros de Saúde do distrito. Coleciona a gota, bicos de papagaio, dermatoses, calos, gases , encafalopatia espongiforme e afins. Na radiologia dizem que o conhecem melhor por dentro do que escondido nas nóveis indumentárias adquiridas no chiquérrimo bazar itinerante marroquino. Numa segunda-feira já distante, à hora do costume, tomou o transporte público para o Porto. Como o sol aínda não aparecera no horizonte, retomou o sono interrompido pela necessidade de se levantar cedo. Resolveu então descalçar-se; eram pouco mais que uma dúzia os companheiros de viagem; menos de duas horas para chegar ao destino. Dinis atracou profundamente no sono. A cada travagem que o motorista fazia, mais se afastavam os sapatos, do dono. Na chapa lisa e zincada escorregavam doce e silenciosamente...O cromo roncava a toda a largura da Auto-Mondinense. Aos poucos a freguesia ía crescendo e as travagens também. Alguns sorrisos indiscretos e olhares tolerantes. Fim da linha - Porto 8h30. Um imenso nevoeiro. O motorista teve que o acordar. O derradeiro passageiro, inconformado, furioso e irado, não tinha de quem desconfiar. Fez-se ao caminho em meias amarelas, da Batalha à Avenida dos Aliados." Puta que paríu estes ladrões, aqueles de verniz com fivela dourada tinham apenas dois dias! "E à porta da Beleza-Teresinha aguardou pelas nove no relógio da Câmara Municipal na esperança de que trezentos escudos o calçassem. Não havia maneira de esconder aqueles terminais 36 cor de gema de galinha caseira. Dinis recusou o último gesto caritativo da sua vida quando um indigente lhe estendeu um saco plástico contendo uns chinelos de meter o dedo. O cromo ficou sem entender que a necessidade partilha-se, a esperteza é que não!
----------------------------------------------------------------------------------- 19/10/2003
POSTAIS PORTUENSES
O Sr. Tabau, tripeiro, bigodinho,óculos de massa, larga a Dona Toninha na porta da Efacec com sua lancheira e segue conduzindo o Ford Taunus de 78 para o escritório da seguradora onde trabalha há 24 anos . Passa 2 horas por dia na Circunvalação e arrabaldes,onde berra, insulta, gesticula, deixando o asfalto escarrado a cada semáforo. Atrás de si um nauseabundo odor a chumbo. Arrasa de asno a quem compara o seu velho bólide às modernas incineradoras. Ouve a TSF e considera-se culto. Chega cansado ao trabalho e por isso tem de fazer uma pausa para o café com cheirinho e A Bola ainda antes de começar. Tem baixa produtividade mas não admite aposentar-se para não perder regalias sociais da empresa; diz-se infeliz porque a prole anda no ecstasy e nos shots. Recupera alguma da sua felicidade batendo na mulher mas já não o faz aos filhos porque estão maiores e piores do que ele. Gostaria de comer a Salette da Contabilidade (que em tempos quis ser cabeleireira mas, tendo descoberto recentemente a sua vocação artística, quer entrar na Academia de Estrelas), mas a Salette não deixa porque o bigode pica e a barriga do gajo não é nada anatómica. Quando se cruza com o Director, invariavelmente o sussurra de cabrão. Nunca lhe perdoará o dia em que foi apanhado na retrete privada do chefe limpando o cú à circular interna do serviço na qual se apelava à pontualidade e contenção nos gastos, impregnado as instalações de um fedor horrível que se instalou durante horas. A perna esquerda recuada da sua secretária está calçada com um livro de bolso; um prontuário ortográfico, ao qual não soube dar melhor uso. Na primeira gaveta, logo em cima, está a edição bilingue de uma revista hardcore, onde uma russita, com duas bombas melhores que as colega da Contabilidade, o fita logo que deita mão ao puxador. "O cabrão não tem aparecido estes dias....estará em Lisboa a tratar de assuntos da empresa? O chulo terá levado a mula que se faz passar por esposa e que começou por limpar as escadas aqui na empresa? Acabou limpando o lorpa." Claro que o senhor Tabau odeia o chefe e por isso vai sair hoje mais cedo ou não fosse habilidade sua controlar os passos do Director. Vai dar uma cantada à telefonista, não por que a queira trocar pela Salette ou pela mulata que está pendurada no calendário que esconde no armário onde joga uma gabardina comida pelo sol, mas porque sabe que a fulana vende um americano ao garrafão que é uma pomada como há muito não se vê. Lá pelas quatro da tardinha já estará em casa moendo a paciência à Dona Toninha para lhe fazer pró lanche umas isquitas de chouriço com salsa e cebola. Esperemos que os ingredientes estejam todos pela despensa para que hoje não seja dia de rebaptizar as sogras lá por casa. Ao serão dará umas roncadas à hora das notícias, perdeu a motivação para ouvir ministros, novas detenções, índices de preços aos consumidores ou as últimas guerras dos futebóis e para mais são trivialidades escutadas na TSF ao longo do dia. Invariavelmente levantar-se-à daquele buraco escavado pelo bom uso, género sepultura de paquiderme, naquilo que outrora se chamava sofá, de olhos semi-cerrados coçará longamente as virilhas e fará o percurso de sempre até aos lençóis. A notícia da TIME não lhe trará insónias esta noite pois vai lamber-se com uma viagem até Bragança, por trás (e pela frente) dos montes da sua perdição.
---------------------------------------------------------------------------------- 15/10/2003
...a mão que embala o berço, é a mão que governa o mundo...
aqui os heróis valem o tempo do nosso silêncio - a cada instante da nossa curiosidade outros gigantes se erguem e nos acolhem até novo silêncio. Domingo é esse dia. Dia da leitura, da contemplação, dos projectos que vão mirrando semana fora. É o dia dos vultos, dos heróis e dos vilões, das descobertas e dos desencantos. Dia das mães, dos filhos, dos bastardos, dos renegados... Somatório de horas que nos escapam, das horas que nunca chegam, que nunca restam, que afinal existem - é domingo ! Lembramos as mães e as mãos, os aromas de cozinha ou as palavras trocadas em volta de um almoço que nunca tinha fim. Assim nos governaram e assim fizemos nossos heróis; são pedaços de domingo recordados a cada novo. Encurtam-se as horas, os dias, os anos. De quantos domingos nos fizemos?
-------------------------------------------------------------------------------- 12/10/2003
Ó Senhor Primeiro !
Escutei hoje na praça que isto está pior que fio-dental;
na fila da carreira, que o passe social vai ter de dar para a vizinhança toda lá da rua;
no barbeiro, que nem bochechas já temos para dar gozo à lâmina;
nos Correios, que na taxa moderadora nos levaram a aderência do cuspo;
na TSF, que abriram excepção à Lei prós garotos ajudarem os pais ;
na homilia, que nos cobrarão o pão ázimo;
ao carteiro, que pagaremos o frete à grama;
ao gato cá dos muros que nem espinhas jogamos ao lixo;
ao PSP que o fio-do-norte substitui as algemas;
à porta da escola, que não aguentam o peso do futuro;
ao sarnento da freguesia que nem restos juntamos ao lixo;
ao anjo da guarda, que se aposenta compulsivamente por extinção dos desígnios que o justificavam!
Senhor Primeiro, depois disto tudo, por favor seja o primeiro....!
---------------------------------------------------------------------------------- 07/10/2003
Ao pé de Marte
Finjo ignorar Marte aqui brilhante, colada à vidraça.
De que me vale calcular trajectórias, elípticas, saber matérias, compostos... O império da sedução está aqui onde se me arrastam os pés. Pois que rode Geia que dela não nos roubam o pouso. E demais, já viram como é bom este mirante?
--------------------------------------------------------------------------------- 26/19/2003
Faltam palavras neste silêncio onde o legado granítico do primeiro homónimo nos fez bravos. Acabam-se os discursos de fé e das capitais que não conheço ordenam rumos que não confio.
Sinto o silêncio que se acaba, nos peitos em desejo de romper, apagar em chamas a miséria que um único estandarte nos fez crer.
Me ergo em ravinas de migalhas, estendo o olhar sem horizonte, chamo pelo Outro que negou a palavra à terra que criou.
Nada de Afonsos nem de Infantes, nada de Brasis, coroas reais ou líderes de turbante,
ficam cifras sem produtos, somam zero à glória, herdamos o nada (como dantes).
--------------------------------------------------------------------------------- 26/09/2003
E na mais inconsequente das oportunidades ele se criou. Não entendi o desejo.
Falar, rasurar, alinhavar, parlamentar? Sei lá...saberei ???
Depois se vê, sim. E quem quererá ver, ler?
Pois, tudo isto poderá ser inócuo e apenas ficar o desejo de ocupar espaço.
E ele há tanto.....
------------------------------------------------------------------------------ 26/10/2003
O regime do discurso.
Por mais que devasse os teoremas dos mais doutos bastardos da lusa língua, não entendo a razão dos ilustres neófitos da desgraça. O discurso do regime apela ao sistema da mudança. Qual mudança? Que mudou nas nossas vidas que não fosse o enorme talento em suportar os novos gestores de uma velha coisa pública? Pois então que nasça a quarta, a sexta, a nona República e que lhe chamem o que entenderem. Que seja oligarquia, dinastia, matriarcado ou terra de pecado. Seja este original, mas que nunca nos obriguem a ser politicamente cordatos, cordeiros ou submissos. Irreverentes, plebeus, filhos de puta ou eunucos, sejamos tudo quanto pudermos com a dignidade de quem viveu sem pedir para tolerar.
------------------------------------------------------------------------------- 26/09/2003
