quarta-feira, 25 de maio de 2011





No dia em que partires
ficarei encerrado numa só mão
tão pequeno como a semente que acolheste
naquela hora em negaste um não
e nos braços me aqueceste.
Ficarei decepado
como o vento sem destino
tão pequeno como a paz que semeaste
no embalo do regaço
e me chamavas de teu menino.
No dia em que partires
prometo abraçar o chão,
dirás sorrindo que Deus assim o quis
é verdade, sim, assim o quis,
eu ficarei só - Ele é que não!

............................................................. 23 Março 2005

Algures entre Ranholas e a Buraca

um emissário devidamente mandatado pelo mentor, reuniu clandestinamente com a comunicação social (fugindo ao segredo protocolar) visando a difusão das seguintes notas à imprensa:
* um ex primeiro-ministro da República Portuguesa faz saber que vai continuar ligado à política.
* Ocupará um cargo de importância relevante na União Europeia.
* Substituirá um velho amigo a quem já um dia fez o favor de o socorrer numa emergência governativa.
* Aceitou , após longos segundos de reflexão, quando viu satisfeita a revindicação de nunca ter menos de oito secretárias escolhidas a olho nu.
* A seu pedido, visando a redução de pastas e consequente poupança erário público, acumulará a pasta de comissário da Agricultura.
* O tubérculo, dizem os rosas, foi o único causador de toda esta seca, onda de frio e geadislâmica , arruinando a produção agrícola e desvitalizando o poderoso lobie da labregagem portuguesa.
* O parlamento europeu anuiu, não necessitando de verificar o seu currículo, uma vez conhecidas as posições deste nabo que determinaram a dita “limpeza do terreiro” e “desinfestação da praga” pelo supremo magistrado da lusa pátria.
* A satisfação e o orgulho da classe política nacional neste convite é tal que está decidido para breve o lançamento de um concurso público internacional para edificação do monumento ao génio da incubadora. (Vai para o Entroncamento dizem uns, é melhor prás Caldas Óh pinam outros).
* O bastonário da confraria da maledicência propôs para o calendário civil nacional a comemoração de um dia dedicado a este paradigma do equívoco em conjunto com o dia do Carlos Cus.
* A estupefacção de um celebérrimo papagaio da praça perante tal convite foi de tal monta, que jurou (por desdém) não comentar nem mais uma única vírgula em qualquer das estações de televisão portuguesas. (consta que está a negociar com a Euronews ).

.......................................................................................... 2 Março 2005

… aos que se privaram da vida
e me deram luz,
aos que tiraram dos rios
e me mataram a sede,
aos que furtaram estrelas
e de noite me alumiaram,
aos que silenciaram o vento
e no regaço me embalaram,
aos que sulcaram a terra
e me deram seiva,
aos que romperam as vestes
e me agasalharam,
aos que me escutaram
e souberam tolerar,
aos que comigo riram
e não quiseram chorar,
aos que partilharam lágrimas
não havendo nada a chorar,
aos que estas palavras lerem
quais folhas aqui no ar,

um dia
cantar-vos-ei em odes
pintar-vos-ei em cânticos
prosar-vos-ei em lira

e partirei... ... ... ... ... ... ...

................................................................................................ 27 Jan 2005

O que eles poderiam ter dito


* Vamos por partes. (Jack "O Estripador")
* A minha esposa tem um bom físico. (Albert Einstein)
* Eu comecei por roer as unhas. (Vénus de Milo)
* Nunca pude estudar Direito. (O Corcunda de Notre Dame)
* Sempre quis ser o primeiro. (João Paulo II)
* Hás-de pagar-me. (Fundo Monetário Internacional)
* Basta de realidades... Queremos promessas! (Os pobres)
* O leite engorda. (Uma grávida)
* Tenho um coração de pedra! (Uma estátua)
* Tenho nervos de aço. (Robocop)
* O automóvel nunca substituirá o cavalo. (A égua)
* Mamã, eu sei tudo! (O Pequeno Larrousse Ilustrado)
* A nossa mãe é uma loba... (Rómulo e Remo)
* Disseram-me para jogar junto à linha branca. (Diego Maradona)
* Tenho um nó na garganta. (Um enforcado)
* O meu noivo é um Monstro. (A Bela)
* Estou feito em pedaços. (Frankenstein)
* Gosto da humanidade. (Um canibal)
* Não vejo a hora de me ir. (Um cego)
* A minha noiva é uma cadela! (Pluto)
* És a única mulher da minha vida! (Adão)
* Avariou-se o despertador... (A Bela Adormecida)
* Levantarei os caídos e os grandes serão oprimidos !!! (O soutien)


---------------------------------------------------------------------------- 19 Jan 2005

Fiquei a saber que na minha rua existem portugueses. Não sei se muitos ou poucos, mas acredito sobretudo que sejam bravos, fiéis e muito devotos – a bem da nação. Adivinho serem daquela região demarcada dentre-o-umbigo e o ânus-da-mãe, desbravada pela nossa ancestral e épica brazonada que desde a remota Idade do Pau se cobrem de glória à custa dos que escaparam à traineira do aborto.
Estes meus conterrâneos vivem como comendadores Queirosianos, em citânias junto do mesmo poço onde a matriarca Fagundes, há longa data, mostrava à canalha como lavar a franga que saciaria os machos esfaimados; hoje chamam a isso de condomínios com piscina privativa.
Içaram uma bandeira, manufacturada algures entre Taiwan e o Paquistão, que de tão descolorida e esfarrapada estar, cada vez se parece mais com o torrão português. Lembra-me aquelas que nos topos de alguns locais públicos, de tão maltratadas estarem, se assemelham a esta saloia enfermidade geneticamente herdada da bastardia casta Fagundes.
Lavam-se com Neoblanc, falam do stress pré-avião, sacodem-se nas Raves, comparam patrimónios, cogitam sobre a próxima fuga fiscal, trocam endereços de tascas de cultura, falam coléricos de casinos malfadados onde penhoraram a esposa por uma noite, que protestam quando os filhos pagam propinas e assinam subscrições contra as taxas moderadoras ou se incendeiam contra novas portagens. São estes os meus vizinhos – os apátridas de ocasião!

------------------------------------------------------------------ 03 Out 2004


LATITUDE NORTE
Eis-me numa tentativa de ensaio sobre a angústia pós férias do blogger diante do monitor em gigantesco branco incapaz para tantas palavras que se pretendem desenhar.
Setembro entrou rápido e a sensação de fim acentua-se. Escapou-se-me este Verão como areia por entre os dedos das mãos e resto sem saber se parti ou nasci com ele, aguardando mudo a próxima vaga. Tal como outrora o mar entrou, durante as férias, no meu destino.


................................................................................... 2 Set 2004


Esfarelo em encefaleias só de pensar o que fazer com o aumento dado generosamente pelo patrão.O bicho tem cá um coração que nenhum aurículo o merece. Não hesitarei em propor o verdugo para que conste no rol dos beneméritos de uma qualquer Misericórdia. Tinha pensado, prometido mesmo, comprar um “capachinho” do género cauda de pavão, para ver se encantava as galinhas das redondezas. Desisti - este aumento não dá. Continua aqui o besugo a ordenhar o computador na esperança de encontrar algo promocionalmente tentador e acessível, uma bicicleta, quem sabe? Mas estes novos modelos são bizarros, desconfortáveis, não se consegue uma posição de sentado, são pouco ergonómicas, nunca me conseguirei adaptar aos selins. Duros, estreitos, diria que foram feitos para rotos. Desisto - não serve. Um isolamento para as paredes cá de casa? Quem sabe? É que a vizinha não dá paz na vizinhança. Tem dias que a televisão dela fica avariada; está sempre a passar aquele anúncio do shampoo Herbal Essences. "Ò ... sim, sim ... siiiim". Que se lixe - até me ajuda a sorrir quando a ouço dizer que não suporta os insolentes e desabafados roncos do vizinho de baixo no wc logo pela manhã. Talvez o dinheiro chegue para comprar pilhas para o brinquedo da minha directora, em forma de dedo indicador invertebrado e que volta e meia a põe doida quando a Rosabela lho pede emprestado e o usa como pissa papeis. Pensando melhor - não o merece. Ocorreu-me a madrinha, tadinha. Soube que está sem emprego, a passar fome mesmo; ouvi-a dizer ao tipo da padaria que lhe mordia o cacete todo e a seguir o aquecia na fornalha até ele ficar grande. Talvez a ajude, oferecendo o fermento.O padrinho também anda desesperado com o encerramento da fábrica. A vida foi hostil para o casal. Quem sabe lhe dê umas indumentárias modernas, dessas que os adolescentes usam. Pelo que percebi, ele não deve gostar nada das roupas que a madrinha lhe compra, porque todas as noites, quando sai com os amigos, leva os vestidos dela. Pensando bem, vou gastá-lo em mim, ou melhor no veículo que vai escorregando aí pelas calçadas, antes que a autoridade me iniba de gingar, vou ao pneumologista comprar quatro recauxutados porque os cobres não me permitem mais que as meias-solas.

.................................................................................... 21 Março 2004

A setôra de Purtugês disse pra fazer blogs purqe eu dava muitos herros. Eu?! Ká em casa disem ke não- o meu cota neim um O - de ovu sab. A minha veilha descunheçe que mile escudus se esqreve com cincu € i a minha hirmã istuda há noite porke de dia naum conçeguia nada. Na iscola tinha de çaber meu, cenaum nunca tinha xegado ao segundário.Em tão naum cei a língoa de Camoies? Pôs kem naum çab kakele tipu candava sempre a curtir as cirigaitas do Bosse foi de castigu par Makau e pur lá escruveu os Luziadas nu mesmu Purtugês kom ke eu vus fallo. Cei tanbém ke sakaram o oulho ao gaijo numa discoteka lá pós ladus de Vila Moura. A gora ke voz cês treminaram de lere esto naum me digaum que naum hé mais fácile presseber exte testo que emtendere o "abrupetu". O Menistro kakáb cúz esames purke unhm chaválo hé pobre maz tenhe dereito a çer Doutore!
.......................................................................................  3 Fev 2004

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Aqui não há poeta, apenas texto .
Há gente do mar, da serra, da terra escrita,
latinos tisnados, bravos guerreiros,
pequenos rudes, heróis errantes,
operários, pescadores,
ex-combatentes, gente de luta,
macacos, velhacos, herdeiros,
cabeças vergadas, emigrantes,
bufos, analfabetos, crentes,
filhos de algo ou da puta.
Deputados, burocratas, novos ricos,
subsidiados, empresários, doutores,
políticos, banqueiros, especuladores,
bastonários, comissários,
gente de bem estes senhores.
Aqui não há texto - há poente.
Há ocasos todos os dias,
eles são as poesias,
com que escrevo a minha gente.

.......................................................................................... 16 Abril 2005

Segredos de uma historiografia mal contada.
Divirto-me com uns cabouqueiros armados de bolígrafos que por aí se arrastam, forçando arrojadas tentativas de imitar Dan Brown .
Chamam-nos de foragidos, de renegados incapazes de apagar um genoma hispânico, de discípulos de um tal Afonso que um dia arreou na velha, uma tal de Tereija que se arrastava lânguida por um tal Fernão Peres de Trava.
__ São esses prosadores que glorificam a habilidade dos nossos vizinhos de Castela em tomar todo o ouro existente a oeste de Tordesilhas e que fingem esquecer que ficámos com as mulatas e o pau em brasa (vulgo Brasil), os dentistas e as novelas.
__ São eles, os de Cervantes que evocam a alma das mulheres e mães Andaluzas que empurraram maridos e filhos Guadalquivir abaixo topando um novo mundo. Vejo a típica família sevilhana: ela com vestidos às bolinhas tipo joaninha saltitante; ele, um parolo de cabelo oleoso que geme como quem está com uma crise de hemorróidas, mas esquecem as nossas nazarenas, que estafam o esposo na faina das sete saias.
__ Minimizam-nos quando recordam a letra de ouro que tomaram Ceuta, Gibraltar e Olivença mas fingem ignorar que anexaram muitos alentejanos.
__ Enaltecem Dulcineia, mas ai de nós darmos nome de Pilar, Concha, Consuelo, Evita, Paloma ou Mercedes a uma dama. As nossas são Fátima, Cândida, Maria ou Augusta.
__ Cravam no papel o seu nacionalismo mas não explicam a razão do “el corte inglês”.
__ Chamam-nos de nuestros hermanos perdidos mas não ouvem o que lhes respondemos - Xô, bastardo! Vai prá p*** que te pariu.
__ Orgulham-se da indústria automóvel mas entendo que ali por trás está uma atitude ilegal de promoção turistica a pagar forte, já viram ? Toledo, Ibiza, Leon, Alhambra, Arosa e outras terrinhas em cima de borracha?
__ Já para não falar nos linguistas que se pavoneiam sublinhando rico linguajar basco, galaico e catalão.Ok, para arrumar com esta superioridade vamos oferecer-lhes uma viajem aos Açores,
em especial a S.Miguel. Concordam?



.................................................................................................... 25 Abril 2005

Aqui não há poeta, apenas texto .
Há gente do mar, da serra, da terra escrita,
latinos tisnados, bravos guerreiros,
pequenos rudes, heróis errantes,
operários, pescadores,
ex-combatentes, gente de luta,
macacos, velhacos, herdeiros,
cabeças vergadas, emigrantes,
bufos, analfabetos, crentes,
filhos de algo ou da puta.
Deputados, burocratas, novos ricos,
subsidiados, empresários, doutores,
políticos, banqueiros, especuladores,
bastonários, comissários,
gente de bem estes senhores.
Aqui não há texto - há poente.
Há ocasos todos os dias,
eles são as poesias,
com que escrevo a minha gente.


....................................................................................... 16 Abril 2005


Segredos de uma historiografia mal contada.
Divirto-me com uns cabouqueiros armados de bolígrafos que por aí se arrastam, forçando arrojadas tentativas de imitar Dan Brown .
Chamam-nos de foragidos, de renegados incapazes de apagar um genoma hispânico, de discípulos de um tal Afonso que um dia arreou na velha, uma tal de Tereija que se arrastava lânguida por um tal Fernão Peres de Trava.
__ São esses prosadores que glorificam a habilidade dos nossos vizinhos de Castela em tomar todo o ouro existente a oeste de Tordesilhas e que fingem esquecer que ficámos com as mulatas e o pau em brasa (vulgo Brasil), os dentistas e as novelas.
__ São eles, os de Cervantes que evocam a alma das mulheres e mães Andaluzas que empurraram maridos e filhos Guadalquivir abaixo topando um novo mundo. Vejo a típica família sevilhana: ela com vestidos às bolinhas tipo joaninha saltitante; ele, um parolo de cabelo oleoso que geme como quem está com uma crise de hemorróidas, mas esquecem as nossas nazarenas, que estafam o esposo na faina das sete saias.
__ Minimizam-nos quando recordam a letra de ouro que tomaram Ceuta, Gibraltar e Olivença mas fingem ignorar que anexaram muitos alentejanos.
__ Enaltecem Dulcineia, mas ai de nós darmos nome de Pilar, Concha, Consuelo, Evita, Paloma ou Mercedes a uma dama. As nossas são Fátima, Cândida, Maria ou Augusta.
__ Cravam no papel o seu nacionalismo mas não explicam a razão do “el corte inglês”.
__ Chamam-nos de nuestros hermanos perdidos mas não ouvem o que lhes respondemos - Xô, bastardo! Vai prá p*** que te pariu.
__ Orgulham-se da indústria automóvel mas entendo que ali por trás está uma atitude ilegal de promoção turistica a pagar forte, já viram ? Toledo, Ibiza, Leon, Alhambra, Arosa e outras terrinhas em cima de borracha?
__ Já para não falar nos linguistas que se pavoneiam sublinhando rico linguajar basco, galaico e catalão.Ok, para arrumar com esta superioridade vamos oferecer-lhes uma viajem aos Açores,
em especial a S.Miguel. Concordam?