terça-feira, 31 de maio de 2011

SONDAGENS


- Não era necessária qualquer sondagem para adivinhar que o português é o povo mais irritadiço da Europa. Dos motivos da irritação nacional conhecemos os mais triviais: passar à frente nas filas, cuspir para o chão, pisar os excrementos de cão, ter de esperar pela vez de sermos atendidos, abrir a persiana e estar de chuva, suportar o sino da igreja ao fim-de-semana, ir à casa-de-banho e não ter papel higiénico, possuir via-verde e arrastarmo-nos nas auto-estradas, chegar ao locar de trabalho e não ter estacionamento,… tudo irrita.


- A mesma empresa de sondagem diz-nos que o povo lusitano, maioritariamente, não acredita no pito dourado. Ruço, moreno, negro, mulato, careca, com piercings, atravessado, tatuado, fedorento, perfumado, sim. Dourado não…! Z. Camarinha confirma.


- Na semana que precedeu à sua inauguração, cerca de metade dos portuenses ignorava que aquele edifício na Boavista era a Casa da Música. Pensavam tratar-se da nova Basílica da capital do trabalho! Quando souberam a verdade, alguns tripeiros reagiram desta forma – “Ora foda-se, eu até já me benzia sempre que ali passava.”


- O dia 10 de Junho é o nosso único feriado composto. Em razão do excesso de feriados em Dezembro, os mais ociosos entenderam aceitável que se transfira para a efeméride do poeta o 8 de Dezembro dia da Imaculada Conceição e assim teríamos o Dia de Portugal, de Camões, da Conceição, das Comunidades e das Condecorações…(tantos Cês cum crlh…!)


- Questionados sobre o político no activo a quem reconheciam mais inteligência, a escolha recaiu sobre o “operário” Jerónimo de Sousa secretário-geral do PCP. Sim, esse, o “operário” que não trabalha desde 1974!

....................................................................................... 22 Junho 2005

Atrocidades
Dia aziago, ou melhor, um dia normal para um obediente bastardo da mãe lusa. A caixa Multibanco "comeu-me" o cartão depois de me equivocar três vezes no código. Amanhã vou ao Banco falar com a bancária, a sedutora da Graciete. Primeiro vou chamar-lhe Elisabete, depois Sallete e finalmente Bernardete. Tudo na esperança que ela me "coma" a mim...Antes do almoço a vizinha queixou-se dos seus novos inquilinos: -"A casa daqueles rapazes parece uma tasca, cheira sempre a tabaco e vinho"… depressa alguém duma janela respondeu: a dela faz-me lembrar um berçário, é só cú-cú, óh-óh com fartura. Decidi passar o resto do dia em casa, devorando notícias. Agarro em"O Coiso", o semanário de maior penetração no país. Conclusão? Mau tempo no canil !... Guerras absurdas por medidas de recuperação económica. Devoro uns quantos cigarros; só inalei impostos e nem tempo tive para o prazer de fumar. Mastigo a nicotina em forma de protesto contra estes políticos autores de um rol de alarvidades próprias de quem snifa alcatrão.

............................................................................................ 20 Junho 2006





Estes olhos
são da cor do mar
do céu, dos horizontes
dos cumes sem montes
das noites sem luar.

São apenas meus
são o fim do infinito,
são oásis sem deserto
são calor num corpo aberto
são silêncio, não são grito.

Olhas neles e que vês tu?
o lume na manhã fria
a hora que sempre tarda
a noite que nunca acaba
o saldo do dia-a-dia.

..................................................................................... 16 Junho 2005


O PORTUGUÊS, DE FACTO, É ÚNICO!

Os tempos são maus, de facto, mas pela voltinha que dei aí pelas escrituras bloguísticas reconheço que a espiritualidade lusa é inversamente proporcional ao estado da nação. Vem a tormenta, sobe a ironia e a boa-disposição.
Avizinha-se a quarta revolução. O quarto coice certeiro no orgulho do género lusitano. Depois do Copérnico ter demonstrado que nós é que os temos a girar à volta de, do Darwin explicar a origem de toda a nossa macacada e de Freud nos chegar a tirar o coiso explicando os actos falhados, o Primeiro Ministro ataca agora, com o novo código anti-sobrevivência!
Sócrates: - "Iva vai subir para os 21% , congeladas as progressões nas carreiras da função pública, aumento no preço dos combustíveis….,…"
Reacção do Povo: SLB, SLB SLB SLB, GLORIOSO, SLB GLORIOSO SLB... ... ...



....................................................................................... 27 Maio 2005


És a ilha que visito,
a praia onde me deito,
o céu onde me espelho
a montanha donde grito,
o silêncio do meu peito...

 És praia de areia escura
que aspira a espuma do ar,
o colo de quem procura
libertar-se da tortura
de ser cativo do mar.
Nessa ilha que se agita
Sob o céu e sobre o mar,
És a gaivota liberta
Nesse basalto que aperta
e não nos deixa gritar.
És o vento lá do norte
Que nos traz agitação
Ora dócil ora forte
Vento é vento, não consorte
vento é hino, é paixão.
Sinto falta desse vento
Com cheiro de maresia
Do calhau onde me sento
Chego triste vou contente
Vento é vento, é poesia.
Ter nascido sobre o mar
Não foi essa a minha sorte
Tenho em último desejo
A terra quente da ilha
Acolher-me em minha morte.
Quero um castelo no mar
Qual mirante de cidade
Quero poder repousar
Sem ter de me separar
Dos pedaços de saudade.
Quero hortências e alfenim
Rosas de todas as cores
Um pedaço de chão raso
Onde germinem flores
Que se alimentem de mim. ®

.................................................................................... 24 Maio 2005



Outrora dizia a sabedoria popular que um homem só se realizaria quando plantasse uma árvore, escrevesse um livro e tivesse um filho. Hoje em dia, plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho não requer nenhuma habilidade especial. Para falar a verdade, dá muito mais trabalho derrubar uma árvore, ler um livro e evitar ter filhos. Estas é que deveriam ser consideradas as verdadeiras realizações de uma vida.
Já viram como quem mora nas grandes cidade nem árvores encontra para derrubar? E se acaso reside na periferia e quer tombar umas carquejas perde-se em pedidos de autorização a diferentes ministérios, a estudos de impacto ambiental ou em ocultar o crime aos ambientalistas….?
E escrever um livro? É assim tão difícil? Quantos conhecemos que apostilaram pelas causas mais banais? Agora, ler um livro...sim, ler um livro! Titânica empresa! Não se tem tempo de terminar ou de o comprar, o dinheiro não sobra, o IVA não ajuda e a livraria fica longe.
Os filhos, nem discuto. Olho a fila da farmácia e já não vejo crianças febris nos colos. Não se recomendam xaropes, supositórios, papas lácteas ou tetinas de silicone. Manter uma vida sexual activa e garantir que não está a fabricar um herdeiro é, de longe, a tarefa mais difícil das três. Quem segura biliões de espermatozóides lutando pela vida na certeza de que nenhum conseguirá cumprir a sua missão?


............................................................................................  22 Maio 2005

quarta-feira, 25 de maio de 2011


Habemus Papam

E se for preciso temos lá mais em stock. Com o cabelo branco, ar de parvo e em fase de decomposição.
....e por falar em cardeais - mas o que é que os manos fumam? Tanto sai fumo preto como fumo branco... também quero!

.................................................................................................... 15 Maio 2005

Li a um amigo que a radiação emitida por postes de alta tensão, por telemóveis, por geradores de energia e até o calor de um computador portátil estão para os testículos como as brasas estão para um bife do cachaço.
Ripostou o serôdio - Isso antigamente já acontecia com umas boladas nos colhões, de os aquecer ao rubro no selim da bicicleta ou por esganar o palhaço umas quantas vezes por dia. ehehe......que forma mais simples de entender os modernos estudos científicos sobre infertilidade masculina.
................................................................................................ 3 Maio 2005

É um facto que os animais ensinam os humanos – recordam-se das fábulas?!
Um cão chega a casa e a doce cadela pergunta - " querido como foi o teu dia?". Ele respondeu - "foi normal.. encontrei a tua parente na rua e pinei com ela logo ali. Mandei uma mija no carro de um peneirento todo perfumado e ainda fui a tempo de chegar a roupa ao pelo ao siamês da vizinha. Larguei a poita no jardim do condomínio , mostrei os dentes ao Presidente e atravessei a Avenida fora da passadeira . Traz-me as pantufinhas e deixa-me cá cheirar o teu rabo antes dos cachorros chegarem" .
Moralidade.......(?)
Esta merda não é do LaFontaine nem de Hans Christian Andersen ou de Esopo,…..mas é o espelho fiel dos venturosos dias com que vestimos a nossa existência.
............................................................................................................. 29 Abril 2005

faz trin ta anos que a avó votou.
Não sabia ao que ía, mas foi.
Não sabia o que ganharia, mas não ficou.
Teve fé. Acreditou nos homens.
Levou o avental e uma caneta com que assinou a liberdade;
Era só mais um dia de trabalho
aquele, o anterior e muitos que a liberdade lhe deu para viver.
A revolução não lhe devolveu a generosidade.
Nunca chegou a saber que Abril era tão tarde.


............................................................................................ 25 Abril 2005






Aqui não há poeta, apenas texto .
Há gente do mar, da serra, da terra escrita,
latinos tisnados, bravos guerreiros,
pequenos rudes, heróis errantes,
operários, pescadores,
ex-combatentes, gente de luta,
macacos, velhacos, herdeiros,
cabeças vergadas, emigrantes,
bufos, analfabetos, crentes,
filhos de algo ou da puta.
Deputados, burocratas, novos ricos,
subsidiados, empresários, doutores,
políticos, banqueiros, especuladores,
bastonários, comissários,
gente de bem estes senhores.
Aqui não há texto - há poente.
Há ocasos todos os dias,
eles são as poesias,
com que escrevo a minha gente.


................................................................................................  16 Abril 2005



Segredos de uma historiografia mal contada.
Divirto-me com uns cabouqueiros armados de bolígrafos que por aí se arrastam, forçando arrojadas tentativas de imitar Dan Brown .
Chamam-nos de foragidos, de renegados incapazes de apagar um genoma hispânico, de discípulos de um tal Afonso que um dia arreou na velha, uma tal de Tereija que se arrastava lânguida por um tal Fernão Peres de Trava.
__ São esses prosadores que glorificam a habilidade dos nossos vizinhos de Castela em tomar todo o ouro existente a oeste de Tordesilhas e que fingem esquecer que ficámos com as mulatas e o pau em brasa (vulgo Brasil), os dentistas e as novelas.
__ São eles, os de Cervantes que evocam a alma das mulheres e mães Andaluzas que empurraram maridos e filhos Guadalquivir abaixo topando um novo mundo. Vejo a típica família sevilhana: ela com vestidos às bolinhas tipo joaninha saltitante; ele, um parolo de cabelo oleoso que geme como quem está com uma crise de hemorróidas, mas esquecem as nossas nazarenas, que estafam o esposo na faina das sete saias.
__ Minimizam-nos quando recordam a letra de ouro que tomaram Ceuta, Gibraltar e Olivença mas fingem ignorar que anexaram muitos alentejanos.
__ Enaltecem Dulcineia, mas ai de nós darmos nome de Pilar, Concha, Consuelo, Evita, Paloma ou Mercedes a uma dama. As nossas são Fátima, Cândida, Maria ou Augusta.
__ Cravam no papel o seu nacionalismo mas não explicam a razão do “el corte inglês”.
__ Chamam-nos de nuestros hermanos perdidos mas não ouvem o que lhes respondemos - Xô, bastardo! Vai prá p*** que te pariu.
__ Orgulham-se da indústria automóvel mas entendo que ali por trás está uma atitude ilegal de promoção turistica a pagar forte, já viram ? Toledo, Ibiza, Leon, Alhambra, Arosa e outras terrinhas em cima de borracha?
__ Já para não falar nos linguistas que se pavoneiam sublinhando rico linguajar basco, galaico e catalão.Ok, para arrumar com esta superioridade vamos oferecer-lhes uma viajem aos Açores,
em especial a S.Miguel. Concordam?

...................................................................................... 7 Abril 2005





No dia em que partires
ficarei encerrado numa só mão
tão pequeno como a semente que acolheste
naquela hora em negaste um não
e nos braços me aqueceste.
Ficarei decepado
como o vento sem destino
tão pequeno como a paz que semeaste
no embalo do regaço
e me chamavas de teu menino.
No dia em que partires
prometo abraçar o chão,
dirás sorrindo que Deus assim o quis
é verdade, sim, assim o quis,
eu ficarei só - Ele é que não!

............................................................. 23 Março 2005

Algures entre Ranholas e a Buraca

um emissário devidamente mandatado pelo mentor, reuniu clandestinamente com a comunicação social (fugindo ao segredo protocolar) visando a difusão das seguintes notas à imprensa:
* um ex primeiro-ministro da República Portuguesa faz saber que vai continuar ligado à política.
* Ocupará um cargo de importância relevante na União Europeia.
* Substituirá um velho amigo a quem já um dia fez o favor de o socorrer numa emergência governativa.
* Aceitou , após longos segundos de reflexão, quando viu satisfeita a revindicação de nunca ter menos de oito secretárias escolhidas a olho nu.
* A seu pedido, visando a redução de pastas e consequente poupança erário público, acumulará a pasta de comissário da Agricultura.
* O tubérculo, dizem os rosas, foi o único causador de toda esta seca, onda de frio e geadislâmica , arruinando a produção agrícola e desvitalizando o poderoso lobie da labregagem portuguesa.
* O parlamento europeu anuiu, não necessitando de verificar o seu currículo, uma vez conhecidas as posições deste nabo que determinaram a dita “limpeza do terreiro” e “desinfestação da praga” pelo supremo magistrado da lusa pátria.
* A satisfação e o orgulho da classe política nacional neste convite é tal que está decidido para breve o lançamento de um concurso público internacional para edificação do monumento ao génio da incubadora. (Vai para o Entroncamento dizem uns, é melhor prás Caldas Óh pinam outros).
* O bastonário da confraria da maledicência propôs para o calendário civil nacional a comemoração de um dia dedicado a este paradigma do equívoco em conjunto com o dia do Carlos Cus.
* A estupefacção de um celebérrimo papagaio da praça perante tal convite foi de tal monta, que jurou (por desdém) não comentar nem mais uma única vírgula em qualquer das estações de televisão portuguesas. (consta que está a negociar com a Euronews ).

.......................................................................................... 2 Março 2005

… aos que se privaram da vida
e me deram luz,
aos que tiraram dos rios
e me mataram a sede,
aos que furtaram estrelas
e de noite me alumiaram,
aos que silenciaram o vento
e no regaço me embalaram,
aos que sulcaram a terra
e me deram seiva,
aos que romperam as vestes
e me agasalharam,
aos que me escutaram
e souberam tolerar,
aos que comigo riram
e não quiseram chorar,
aos que partilharam lágrimas
não havendo nada a chorar,
aos que estas palavras lerem
quais folhas aqui no ar,

um dia
cantar-vos-ei em odes
pintar-vos-ei em cânticos
prosar-vos-ei em lira

e partirei... ... ... ... ... ... ...

................................................................................................ 27 Jan 2005

O que eles poderiam ter dito


* Vamos por partes. (Jack "O Estripador")
* A minha esposa tem um bom físico. (Albert Einstein)
* Eu comecei por roer as unhas. (Vénus de Milo)
* Nunca pude estudar Direito. (O Corcunda de Notre Dame)
* Sempre quis ser o primeiro. (João Paulo II)
* Hás-de pagar-me. (Fundo Monetário Internacional)
* Basta de realidades... Queremos promessas! (Os pobres)
* O leite engorda. (Uma grávida)
* Tenho um coração de pedra! (Uma estátua)
* Tenho nervos de aço. (Robocop)
* O automóvel nunca substituirá o cavalo. (A égua)
* Mamã, eu sei tudo! (O Pequeno Larrousse Ilustrado)
* A nossa mãe é uma loba... (Rómulo e Remo)
* Disseram-me para jogar junto à linha branca. (Diego Maradona)
* Tenho um nó na garganta. (Um enforcado)
* O meu noivo é um Monstro. (A Bela)
* Estou feito em pedaços. (Frankenstein)
* Gosto da humanidade. (Um canibal)
* Não vejo a hora de me ir. (Um cego)
* A minha noiva é uma cadela! (Pluto)
* És a única mulher da minha vida! (Adão)
* Avariou-se o despertador... (A Bela Adormecida)
* Levantarei os caídos e os grandes serão oprimidos !!! (O soutien)


---------------------------------------------------------------------------- 19 Jan 2005

Fiquei a saber que na minha rua existem portugueses. Não sei se muitos ou poucos, mas acredito sobretudo que sejam bravos, fiéis e muito devotos – a bem da nação. Adivinho serem daquela região demarcada dentre-o-umbigo e o ânus-da-mãe, desbravada pela nossa ancestral e épica brazonada que desde a remota Idade do Pau se cobrem de glória à custa dos que escaparam à traineira do aborto.
Estes meus conterrâneos vivem como comendadores Queirosianos, em citânias junto do mesmo poço onde a matriarca Fagundes, há longa data, mostrava à canalha como lavar a franga que saciaria os machos esfaimados; hoje chamam a isso de condomínios com piscina privativa.
Içaram uma bandeira, manufacturada algures entre Taiwan e o Paquistão, que de tão descolorida e esfarrapada estar, cada vez se parece mais com o torrão português. Lembra-me aquelas que nos topos de alguns locais públicos, de tão maltratadas estarem, se assemelham a esta saloia enfermidade geneticamente herdada da bastardia casta Fagundes.
Lavam-se com Neoblanc, falam do stress pré-avião, sacodem-se nas Raves, comparam patrimónios, cogitam sobre a próxima fuga fiscal, trocam endereços de tascas de cultura, falam coléricos de casinos malfadados onde penhoraram a esposa por uma noite, que protestam quando os filhos pagam propinas e assinam subscrições contra as taxas moderadoras ou se incendeiam contra novas portagens. São estes os meus vizinhos – os apátridas de ocasião!

------------------------------------------------------------------ 03 Out 2004


LATITUDE NORTE
Eis-me numa tentativa de ensaio sobre a angústia pós férias do blogger diante do monitor em gigantesco branco incapaz para tantas palavras que se pretendem desenhar.
Setembro entrou rápido e a sensação de fim acentua-se. Escapou-se-me este Verão como areia por entre os dedos das mãos e resto sem saber se parti ou nasci com ele, aguardando mudo a próxima vaga. Tal como outrora o mar entrou, durante as férias, no meu destino.


................................................................................... 2 Set 2004


Esfarelo em encefaleias só de pensar o que fazer com o aumento dado generosamente pelo patrão.O bicho tem cá um coração que nenhum aurículo o merece. Não hesitarei em propor o verdugo para que conste no rol dos beneméritos de uma qualquer Misericórdia. Tinha pensado, prometido mesmo, comprar um “capachinho” do género cauda de pavão, para ver se encantava as galinhas das redondezas. Desisti - este aumento não dá. Continua aqui o besugo a ordenhar o computador na esperança de encontrar algo promocionalmente tentador e acessível, uma bicicleta, quem sabe? Mas estes novos modelos são bizarros, desconfortáveis, não se consegue uma posição de sentado, são pouco ergonómicas, nunca me conseguirei adaptar aos selins. Duros, estreitos, diria que foram feitos para rotos. Desisto - não serve. Um isolamento para as paredes cá de casa? Quem sabe? É que a vizinha não dá paz na vizinhança. Tem dias que a televisão dela fica avariada; está sempre a passar aquele anúncio do shampoo Herbal Essences. "Ò ... sim, sim ... siiiim". Que se lixe - até me ajuda a sorrir quando a ouço dizer que não suporta os insolentes e desabafados roncos do vizinho de baixo no wc logo pela manhã. Talvez o dinheiro chegue para comprar pilhas para o brinquedo da minha directora, em forma de dedo indicador invertebrado e que volta e meia a põe doida quando a Rosabela lho pede emprestado e o usa como pissa papeis. Pensando melhor - não o merece. Ocorreu-me a madrinha, tadinha. Soube que está sem emprego, a passar fome mesmo; ouvi-a dizer ao tipo da padaria que lhe mordia o cacete todo e a seguir o aquecia na fornalha até ele ficar grande. Talvez a ajude, oferecendo o fermento.O padrinho também anda desesperado com o encerramento da fábrica. A vida foi hostil para o casal. Quem sabe lhe dê umas indumentárias modernas, dessas que os adolescentes usam. Pelo que percebi, ele não deve gostar nada das roupas que a madrinha lhe compra, porque todas as noites, quando sai com os amigos, leva os vestidos dela. Pensando bem, vou gastá-lo em mim, ou melhor no veículo que vai escorregando aí pelas calçadas, antes que a autoridade me iniba de gingar, vou ao pneumologista comprar quatro recauxutados porque os cobres não me permitem mais que as meias-solas.

.................................................................................... 21 Março 2004

A setôra de Purtugês disse pra fazer blogs purqe eu dava muitos herros. Eu?! Ká em casa disem ke não- o meu cota neim um O - de ovu sab. A minha veilha descunheçe que mile escudus se esqreve com cincu € i a minha hirmã istuda há noite porke de dia naum conçeguia nada. Na iscola tinha de çaber meu, cenaum nunca tinha xegado ao segundário.Em tão naum cei a língoa de Camoies? Pôs kem naum çab kakele tipu candava sempre a curtir as cirigaitas do Bosse foi de castigu par Makau e pur lá escruveu os Luziadas nu mesmu Purtugês kom ke eu vus fallo. Cei tanbém ke sakaram o oulho ao gaijo numa discoteka lá pós ladus de Vila Moura. A gora ke voz cês treminaram de lere esto naum me digaum que naum hé mais fácile presseber exte testo que emtendere o "abrupetu". O Menistro kakáb cúz esames purke unhm chaválo hé pobre maz tenhe dereito a çer Doutore!
.......................................................................................  3 Fev 2004

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Aqui não há poeta, apenas texto .
Há gente do mar, da serra, da terra escrita,
latinos tisnados, bravos guerreiros,
pequenos rudes, heróis errantes,
operários, pescadores,
ex-combatentes, gente de luta,
macacos, velhacos, herdeiros,
cabeças vergadas, emigrantes,
bufos, analfabetos, crentes,
filhos de algo ou da puta.
Deputados, burocratas, novos ricos,
subsidiados, empresários, doutores,
políticos, banqueiros, especuladores,
bastonários, comissários,
gente de bem estes senhores.
Aqui não há texto - há poente.
Há ocasos todos os dias,
eles são as poesias,
com que escrevo a minha gente.

.......................................................................................... 16 Abril 2005

Segredos de uma historiografia mal contada.
Divirto-me com uns cabouqueiros armados de bolígrafos que por aí se arrastam, forçando arrojadas tentativas de imitar Dan Brown .
Chamam-nos de foragidos, de renegados incapazes de apagar um genoma hispânico, de discípulos de um tal Afonso que um dia arreou na velha, uma tal de Tereija que se arrastava lânguida por um tal Fernão Peres de Trava.
__ São esses prosadores que glorificam a habilidade dos nossos vizinhos de Castela em tomar todo o ouro existente a oeste de Tordesilhas e que fingem esquecer que ficámos com as mulatas e o pau em brasa (vulgo Brasil), os dentistas e as novelas.
__ São eles, os de Cervantes que evocam a alma das mulheres e mães Andaluzas que empurraram maridos e filhos Guadalquivir abaixo topando um novo mundo. Vejo a típica família sevilhana: ela com vestidos às bolinhas tipo joaninha saltitante; ele, um parolo de cabelo oleoso que geme como quem está com uma crise de hemorróidas, mas esquecem as nossas nazarenas, que estafam o esposo na faina das sete saias.
__ Minimizam-nos quando recordam a letra de ouro que tomaram Ceuta, Gibraltar e Olivença mas fingem ignorar que anexaram muitos alentejanos.
__ Enaltecem Dulcineia, mas ai de nós darmos nome de Pilar, Concha, Consuelo, Evita, Paloma ou Mercedes a uma dama. As nossas são Fátima, Cândida, Maria ou Augusta.
__ Cravam no papel o seu nacionalismo mas não explicam a razão do “el corte inglês”.
__ Chamam-nos de nuestros hermanos perdidos mas não ouvem o que lhes respondemos - Xô, bastardo! Vai prá p*** que te pariu.
__ Orgulham-se da indústria automóvel mas entendo que ali por trás está uma atitude ilegal de promoção turistica a pagar forte, já viram ? Toledo, Ibiza, Leon, Alhambra, Arosa e outras terrinhas em cima de borracha?
__ Já para não falar nos linguistas que se pavoneiam sublinhando rico linguajar basco, galaico e catalão.Ok, para arrumar com esta superioridade vamos oferecer-lhes uma viajem aos Açores,
em especial a S.Miguel. Concordam?



.................................................................................................... 25 Abril 2005

Aqui não há poeta, apenas texto .
Há gente do mar, da serra, da terra escrita,
latinos tisnados, bravos guerreiros,
pequenos rudes, heróis errantes,
operários, pescadores,
ex-combatentes, gente de luta,
macacos, velhacos, herdeiros,
cabeças vergadas, emigrantes,
bufos, analfabetos, crentes,
filhos de algo ou da puta.
Deputados, burocratas, novos ricos,
subsidiados, empresários, doutores,
políticos, banqueiros, especuladores,
bastonários, comissários,
gente de bem estes senhores.
Aqui não há texto - há poente.
Há ocasos todos os dias,
eles são as poesias,
com que escrevo a minha gente.


....................................................................................... 16 Abril 2005


Segredos de uma historiografia mal contada.
Divirto-me com uns cabouqueiros armados de bolígrafos que por aí se arrastam, forçando arrojadas tentativas de imitar Dan Brown .
Chamam-nos de foragidos, de renegados incapazes de apagar um genoma hispânico, de discípulos de um tal Afonso que um dia arreou na velha, uma tal de Tereija que se arrastava lânguida por um tal Fernão Peres de Trava.
__ São esses prosadores que glorificam a habilidade dos nossos vizinhos de Castela em tomar todo o ouro existente a oeste de Tordesilhas e que fingem esquecer que ficámos com as mulatas e o pau em brasa (vulgo Brasil), os dentistas e as novelas.
__ São eles, os de Cervantes que evocam a alma das mulheres e mães Andaluzas que empurraram maridos e filhos Guadalquivir abaixo topando um novo mundo. Vejo a típica família sevilhana: ela com vestidos às bolinhas tipo joaninha saltitante; ele, um parolo de cabelo oleoso que geme como quem está com uma crise de hemorróidas, mas esquecem as nossas nazarenas, que estafam o esposo na faina das sete saias.
__ Minimizam-nos quando recordam a letra de ouro que tomaram Ceuta, Gibraltar e Olivença mas fingem ignorar que anexaram muitos alentejanos.
__ Enaltecem Dulcineia, mas ai de nós darmos nome de Pilar, Concha, Consuelo, Evita, Paloma ou Mercedes a uma dama. As nossas são Fátima, Cândida, Maria ou Augusta.
__ Cravam no papel o seu nacionalismo mas não explicam a razão do “el corte inglês”.
__ Chamam-nos de nuestros hermanos perdidos mas não ouvem o que lhes respondemos - Xô, bastardo! Vai prá p*** que te pariu.
__ Orgulham-se da indústria automóvel mas entendo que ali por trás está uma atitude ilegal de promoção turistica a pagar forte, já viram ? Toledo, Ibiza, Leon, Alhambra, Arosa e outras terrinhas em cima de borracha?
__ Já para não falar nos linguistas que se pavoneiam sublinhando rico linguajar basco, galaico e catalão.Ok, para arrumar com esta superioridade vamos oferecer-lhes uma viajem aos Açores,
em especial a S.Miguel. Concordam?

Fazia meses que não encarava o Ananias. O fulano ligou-me ontem pela manhã. Combinámos o almoço num lugarejo que só ele conhecia; do tipo recanto de vareja onde a clientela arriba de Jaguar ou Saab. Escondemos as carroças no fundo da viela junto dos contentores do lixo, não fossem os distintos papantes julgar que havia criaturas que se pesseavam naquilo.Logo percebi que não seria ali que esgaçaríamos o pato à manápula. Não há coisa que me irrita mais do que aqueles tipos que nos restaurantes finos repetem frases de circunstância para passarem por conhecedores e requintados -"Eu acho que o vinho precisa de repousar mais um bocadinho" ou "Deixa o vinho respirar mais um bocadinho". Coitadinho do vinho, comprem-lhe uma máquina de oxigénio e uma poltrona reclinável; foda-se, que senão ainda morre. Tentava eu explicar ao meu companheiro da minha surpresa pela notificação do IRS de 1978, de uma multa de estacionamento na barragem do Alqueva em 1974 e do levantamento da hipoteca sobre um mísero banco de jardim onde dedilhei os meus primeiros acordes púberes, quando um fulano atrás reclamou sobre uma pomada indevidamente chambreada ( o gebo tem termómetro na língua?) Chega! Não deu para continuar fazendo quorum a tanta paneleirada. Ali perto, um conhecido tasco de fast-food deteve-nos. Nunca percebi aquela hiper-mega-puta-que-a-pariu cadeia alimentar que tem como símbolo um M amarelo que nos entope de merdas de gorduras saturadas e um palhaço castrado. Entrar num MacD é a mesma coisa que atravessar um buraco negro. Os indivíduos que lá trabalham são McNíficos extraterrestres, seres maléficos de 5 olhos que falam uma língua esquisita, a língua dos Mc’s. Os nomes verdadeiros de todos os empregados devem ser McLaudio, McArlos, McGyver etc... Mas a fome era tanta e o aumento do vencimento tão pouco que mesmo assim esforcei-me para tentar comunicar com eles : - quero um Super McMenu McArrão e p`ra beber u´McCaneca por favor. "Não temos esse McMenu" disse ele. Ao qual retorqui: McMerda é esta? Ananias Foda-se! Porque MCrias ver logo hoje?


------------------------------------------------------------ 30 Jan 2004

terça-feira, 17 de maio de 2011


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DGCI - Gabinete das Cobranças coercIVAS
Exmº Sr. Mello & Patuleia,
No articulado do novo regimento de taxas coercivas, vimos por este meio informá-lo que procederemos à cobrança dos impostos que o usuário se esquivou a pagar, no âmbito deste seu blog. A saber :
artº1. Imposto sobre Blogs
Na sequência do surto bloguista, este Ministério emanou uma portaria que obriga todos os detentores de blogues a pagar por cada linha escrita. A razão para tal decisão é a de que enquanto estão a escrever não pagam impostos, não estão a consumir (pagando IVA, claro), não estão numa repartição pública a pagar emolumentos, não estão a andar de carro (fugindo às operações da GNR, portagens ou parqueamentos) , etc,etc.pelo que é devido 1€ por cada linha escrita.
(NOTA: como não tenho tempo para andar a contar linhas, este é um imposto de auto-declaração sob compromisso de honra com apostilha por trás, pelo que o post, o blog e o PC deverão permanecer inviolados por um período de quatro anos para posteriores fiscalizações,ou como ora se roga - para memória futura).

artº2. Imposto sobre ideias
Uma vez que este é um país de poetas, políticos (leva vírgula), panascas , sábios, comentadores e espertalhões, a melhor forma de combater o défice é taxar a idiotice, já que é um recurso abundante. Dessa forma, a portaria vem taxar cada ideia em 5€, estando esta sujeita à retenção na fonte-da-telha. Deduzem-se na totalidade as ideias impossíveis de serem aproveitadas pela oposição.

artº3. IVA sobre os Blog hosting tools (mas que caralho quer isto dizer?)
Estando qualquer actividade sujeita a IVA (esperem lá que já estão a ser aferidos e calibrados os contadores de oxigenio que passarão a ser de uso obrigatório), não esperavam que o alojamento de blogues fosse gratuito, não? Assim sendo e uma vez que o Blogspot é estrangeiro mas o consumo efectivo é realizado em território nacional, fazfavôo de passar os 19% de IVA sobre o custo da ligação ao alojador.

artºFinal. Pelo uso de nick-name, ao abrigo do qual muita distinta personalidade quer passar incólume e por essa via caluniar os distintos eleitos públicos, será o IP tributado em função da grandeza histórica do nick utilizado, assim como titulares de brazão, heráldica ou patronímicos familiares reconhecidamente ligados a lobbies empresariais no espaço Shengen (ó chefe de gabinete, é assim que se escreve esta bodega?), numa fórmula onde o coeficiente acumula os donativos gentilmente ofertados aos arrumadores de veículos, as gorjetas dados nos Casinos e o caviar adquirido em zonas francas.
*Assim, como utiliza o nick Patuleia, sugere o meu acessor cultural que omita tal apelido subversivo pois o momento actual do país é pacífico e nada justifica o seu uso. De igual modo, como Mello é nosso parceiro estratégico na gestão hospitalar, banca , seguros e imobiliária, importa não fazer uso de tamanhas sinergias (que vocábulo bonito! arre!) para mobilizar o cidadão capitalista da classe média na compra de participações ou acções da futura privatização da função pública.
Tem 2 dias para pagar todos estes impostos em atraso, sob pena de me ver a tocar à porta de sua casa devidamente vestida de negro e equipada de pasta cobradora.
O não pagamento obriga ao cumprimento de 30 dias de serviço militar no Iraque , 45 em Kabul ou 69 em assessoria ao Ministro das Tropas.

Lisboa, este Janeiro de 2004
Nelinha deLeite and Shift.
(Cobradora do fraque - cobranças fraudulentas)


------------------------------------------------------------------------------ 14/01/2004




Não posso dizer que foi um agradável encontro a última vez que me cruzei com o Picantino.
Algures na calçada, o fulano tropeçou no calcário e saudou-me com uma ternurenta marrada no peito, logo disso se queixando o meu Siemens com um polifónico Cucaratcha... Do alto das suas cinco polegadas de tacão sorriu-me; é como ter a Gioconda a fitar-nos...agora ponham-lhe uma barbicha e uma bateria duracell. Eis o Homem!
Verborreou, sacudiu, linguajou, apenas retive a sua enorme frustração pelo facto de nem de pão nem de circo se alimentar este povo. Não posso deixar de lhe dar razão - os dez novos circos construidos para o Euro 2004 não são para a peida dos mais comuns dos pelintras que afogam as mágoas na bola e ali têm ido declamar a mais vernácula das sebentas de maldicência; quanto ao pão,antevê-se muito marmelo entre os patas negras nas planícies alentejanas disputando bolota para casa. O Picantino tem razão - enquanto os compadres comunitários virão ao Euro disfrutando de pacotes promocionais com bilhetes para os jogos, deslocações a Bragança, feijoada, migas e farófias incluidas, o saloio cá do torrão vai sentar-se no banquinho ao fundo do quintal pasmado, vendo as uvas crescer ou se mais abastança tiver, pode agarrar na "bicicleta a pedal" e escorregar Via Norte abaixo até Pedras Rubras para ver os passarinhos da Boeing pousar. Depois do tempo de antena que teimo em conceder às minorias , foi com alívio que o vi partir esbaforido, qual meretriz desenfreada em busca do espertinho da nota falsa.


------------------------------------------------------------------------------- 12/01/2004


Típico princípio de noite angrense.
Vento forte, frio.
Lembra-me as fustigadas Rua do Galo abaixo.
Falta o cheiro a maresia, a pacatez da Praça Velha, a canalha a correr para a Fanfarra Operária, o gemido longínquo da bombaria, o saudar do TerrAlta no porto das pipas, o preguiçoso voo das cagarras, os piropos ao zé-greta.
É a doce presença do distante passado que saúdo.


---------------------------------------------------------------------------------- 07/01/2004



Hoje não é o meu dia, nem dia para mim.
Dedico-o a ti mãe -
estar contigo continua a ser
tão seguro como dormir na palma de Deus.




----------------------------------------------------------------------------------- 03/01/2004

Tem a malícia castiça da tasqueira portuense e alberga o gene mau desde que a bisavó galesa foi escovada pelo rapaz das cavalariças. Esta bisneta teve sorte difente - nubeou de penalti, coisa de decisão meteórica ou neste momento estaria a jogar no meio campo aguardando a entrada do oponente em cena , dá-se pela graça de Mijardina Salgado, uma meia cota dada a excentricidades - três animais exóticos, um melga bissexual , um cão judeu circuncisado e uma rã que toda a noite arrota (não inventariando o delinquente de cabeção, o tal que ludibriou meia plateia causando a penalidade). As excentricidades desta boémia tripeira são de vasto rol e a debilidade das suas meninges cruzou oceanos. Não dispensa o uso da túnica urdida pelas névoas magrebinas, o bailar da ossatura sob o casaco de pele de macaco narigudo , fazer tomografias computorizadas para dar a conhecer a sua beleza interior ou o sabonete de alumínio pela manhã. Os anos passam e o tal gene mau já faz estragos - almoços transgénicos, chá de malte às cinco na Batalha, bio-desnatado no Aliados, seis e meia nos Clérigos aprumada pró delinquente almofadar as falanges. Escultura o body num fitness manhoso qual tertúlia assídua de meliantes bronzeados.Ontem Mijardina não faltou à inauguração do Estádio do Dragão e colerizou com os primeiros torrões do bonito relvado. Na bancada Vip culparam as toupeiras infiltradas pelos mouros; ela diz que foi o R. Rio que arranjou umas "micas" em miniatura que minaram o precioso relvado, outros dizem que foram umas mijadelas dos pretos que andavam lá a trabalhar, os mesmos que mictaram em Alvalade e espalharam o dito fungo escurinho pois a relva, quando se vira ao contrário, fica da cor dos malvados que lá deitaram o referido animal. A noite terminou linda com o fogo, ainda que Mijardina e seus meliantes preferissem o genuíno, aquele do hálito dos sáurios, tão calorífico quanto o bagaço do Bar do Piruças que a acolheria duas horas depois. (Ah...o Piruças é um ex-corsário de Bornéu que apanhado por uma tsunami quando surfava em bambus, chegou A-ver-o-mar).


----------------------------------------------------------------------------------- 26/12/2003

Para o irmão a quem não chego,
ao sogro que já não brindo,
à avó que nos deixou,
à família que por aí festeja,
aos amigos a quem não tive tempo de pedir para serem felizes.
...

(boas festas)
apenas um velho hino sobre o berço.

------------------------------------------------------------------------------------ 22/12/2003


" A Vinícius de Moraes"
Por que é que fomos feitos?
Ao nascer somos saudados
ao longo da vida lembrados
- até que a luz se apaga.
A vida, um leve pisar
um rápido caminhar
- atrás de tudo ou do nada.
A terra cavada a dedos
abafa nossos segredos
- como as contas de um terço.
Fazem-nos versos de dor
cantam-nos com tanto amor
- como nos fazem no berço.
Adeuses de longo braço
não há mais nada a dizer...
A vida fez-se a fazer
o espaço de quem parte.

-------------------------------------------------------------------------------- 10/12/2003

Pelo caminho da estrela.

Este ano não vou...
Não vou pegar nos caixotes
armar a escada, pendurar fitas e berloques
não vou colocar a estrela no lugar dela
nada de luzes,anjos ou a chama duma só vela.
Este ano não ...
Neste Natal não quero a estrela sem brilho
nem esta idade de memórias.
Da janela, na noite, seguirei o trilho
das palavras simples, das mais belas histórias.
Este ano, às moradas do tempo não vou
de encontro à identidade viciada,
não quero ser o mesmo que, no sapatinho tudo procurou
ou o homem das barbas que tudo deu ou não deu nada.
Este ano não vou...deixar que a Lua se levante,
nos deixe no delírio mergulhados
dum calendário que nos arrasta e faz estragos
com o olhar parado na lareira fumegante.
Este ano não sou...

-------------------------------------------------------------------------------- 09/12/2003


Não escrevi.
Esta página esteve em silêncio.
Não se me esgotavam os motivos para o texto
mas este silêncio é o entendimento que possuo sobre a regeneração da vida.
É o Outono, também da prosa,
é o perscrutar dos genes que se negam à multiplicação.
É o definhar dos sóis.
Caíu a noite
- encosto a cabeça à vidraça,
arrumo a espuma do dia
e continuo trabalhando o silêncio...

 --------------------------------------------------------------------------------  03/12/2003


Morreu a avó. O meu mundo ficou mais pequeno.
Carrego o peso desta morte.Dos pequenos e grandes gestos da avó.
Não há gritos ou choros alojados na minha alma. Apenas a saudade, o gosto adocicado da sua presença.
Alguma da minha juventude foi vivida com a presença e o magistério da avó Clementina; seus doces abraços, suas palavras sempre amigas e confortantes, seus sorrisos cândidos e breves - por isto te agradeço avó.
Recordarei os aromas dos teus cozinhados, a suavidade da tua pele, a religiosidade das tuas acções, a sabedoria dos teus conselhos, a paz do teu olhar...
No "meu" cancioneiro açoriano haverá sempre o teu lugar .
Estarei de luto para sempre; até nos juntarmos, avó...


-------------------------------------------------------------------------------- 08/11/2003


da blogosfera....
Nem tudo que se lê por aí nos blogs constitui uma montra de vaidades ou uma fogueira de ousados. Certo é que os Weblogs se reproduzem como coelhos... Começam a explodir “sociedades bloguistas”, irmandades. Mulheres que falam de homens, homens a escrever sobre mulheres, umas a falar mal de outras e aínda há quem diga mal de si no seu próprio blog. Agrada-me este fenómeno que colocou milhares de portugueses a escrever. Seguem-se E-mails com elogios, ameaças de morte, ciúmes, críticas, dando vida própria ao blog. Há gente que comenta tudo, jornais, notícias, política, resultados desportivos, estilos, imagens, templates... Além de retratar a vida das pessoas, aparecem links para sites, fotos, músicas, filmes, mulheres , montes de assuntos, brotando weblogs temáticos, separados por género, amizade, vontade, mania, trabalho ou até os sobre nada. Uma certa concorrência... As fotos, ah...- sites com rosto. Ensaios... Ruas, praias, crónicas, humor, praças, assembleias,poesia, multidões, figuras públicas, anónimos, ignorados, falecidos,drama, deificados, mártires, desgraçados, vilões, réus, arguidos, mitos, vítimas, ciência, traições, sonhos, paixões, música ou silêncio. Com toda esta diversidade e riqueza, a explosão blogográfica criou o subúrbio blogueiro, o bairro da lata, a favela, o bidonville, the shantytown. Cria-se o hábito diário de visitar aquele blog como se fossemos bater à porta do vizinho; é um querer saber como está, o que o incomoda, se viu, sentiu, leu e reagiu. Passeia-se por páginas de escrita escorreita, lúdica ou requintada. Evitam-se links de gosto duvidoso, ruelas sem sentido nem propósito.É um universo; é melancólico, é nostálgico, é engraçado, é irritante... É o arquivo de muitas vidas, intimidades e pontos de vista. É, e ponto.


---------------------------------------------------------------------------------- 07/11/2003


O OUTRO NOME DA ROSA
Olhou o calendário com indiferença. Tanto se lhe dá...não imagina outro ciclo que não este. Uma rotina amnésica e indolor- acordar-defecar-lavar-depilar-comer-vestir-trabalhar. Ahhh...vida odiosa, repleta de terrores com curtíssimos intervalos de prazer. Espreitou o espelho e pareceu estar na frente de um menir. Não retocou absolutamente nada. Quase perfeito, quase inerte, quase,quase para ser um pouquito mais do que aquele nada com quem coabita todas as alvoradas. Quase forçado a chorar baldes e baldes por razões nada aparentes . Não fossem os delirantes artistas "populares" quais azeiteiros, sempre com duas bailarinas nas espaldas, para dar maior credibilidade ao olival, envelheceria empedernido. Nem as super-modernas mamografias feitas pelos satélites na NASA o convencem de uns saudáveis delírios a que estes loucos nos submetem. Um derradeiro suspiro à porta do emprego. Lança a mão à cinta e sobe as calças. Aguarda a reverência da porta automática. Olha de soslaio a câmara que o filma e enrijece o esqueleto - é ele, o funcionário do número macanográfico , vulgarmente conhecido pelo côdeas. Todo ele é uma única ruga; coisas de feitio...a dedicação ao emprego fez-lhe o carácter e os compromissos com a vida emprestaram-lhe a morfologia.


----------------------------------------------------------------------------------------------  05/11/2003

......Interioridades.......
Zé Sabonete, autarca de sucesso em Testa Gorda, leva cinco mandatos no papo assim como largos hectolitros de cerveja. É um viúvo pouco cobiçado. A extinta, deixou-lhe uma filha em fraldas, a quem chamam de Pureza. Tornou-se numa rapariga formosa e aos 18 anos é o orgulho do povoado, a hóstia das beatas, a misse dos bombeiros, a erecção dos rapazes. Por agora a satisfação da moça é ser majorete da fanfarra exibindo destreza manual com o bastão de comando, rasgando as ruas com a "bombeirada" atrás, inebriada com tamanhas virtuosidades. Em Testa Gorda diz-se à boca-cheia que a moça tinha pinta para fazer novelas; outros à boca-pequena afirmam que a Purinha já rodou por aí numas do celulóide... Nesta aldeia a única animação nocturna é a tasca do Martelo onde em noite de futebol as mulheres não entram, com medo de ser violadas com uma garrafa de "Sagres". A Barona, dona de respeitosos seios onde os pintassilgos formam alas para empoleirarem, é proprietária do estabelecimento alternativo para os dias sem bola. Empresária de uma firma de aconchegos, dirige meia dúzia de colaboradoras que acrescentam alguns dos piores epitáfios à terrinha . Ela sabe do crescente sucesso da casa e do peso da mesma nas finanças municipais. Ali não há borlas para ninguém, muito menos para funcionários públicos (lê-se no átrio do estabelecimento). Hoje em dia as suas meretrizes frequentam mais a repartição de finanças que os funcionários desta, o Bordel. Famosa pelos seus apetites caninos e consequente flatulência, a Barona é sócia-fundadora e presidente da confraria da biscoitinha. Ao serão, acompanhada das confrades, relaxa de um horrível dia de tédio que a rotina dos desocupados faz acumular, jazendo atrás de um curta mesa de mogno. Atascada num velho sofá com dois palmos de espuma , qual Afrodite entronizada, move-se ao ritmo dos pruridos das micoses nas virilhas ou dos ácaros que guerrilham nas amazónicas axilas. Seu maior desejo é nunca vir a ter a concorrência desses novos bares-de-alterne (ou lá como lhe chamam) onde os machos debutam no Éden quais inocentes mancebos, jogando as noites em troca de casamentos ditos eternos. O que mais lhe faltava era ter as senhoras da terra assinando petições para o Governo Civil exigindo o encerramento da única colectividade de lazer e recreio do povoado. Mas ela confia que os créditos outrora dados às autoridades salvem a firma de aconchegos de um encerramento compulsivo.Entre as mãos tem esta missiva que fará chegar ao supremo edil: - "Aqui na minha desde sempre Testa Gorda onde o vosso amigo e distinto Sabonete nunca entrou nem a Pureza ou outros de bem, apenas catraios ou velhos se divertem trocando momentos de folia e ternura por uns cobres que faço levar religiosamente à tesouraria e que servem Vossa Exª na gestão de nosso município, não permita que agitem cartazes de protesto enchendo a boca de Barona nem que outros do mesmo negócio aqui se instalem. Pelos seus bons ofícios por esta casa, jamais se fecharão para si as portas da biscoitinha. Do meu mais fundo - assina: a Presidente da Confraria ( ilegível )".

----------------------------------------------------------------------------------------------- 31/10/2003


Voltas do mundo
Ao observar o mapa-mundo da National Geographic que se encontra aqui à minha frente sob o vidro desta mesa onde trabalho constato, para tristeza minha, não ter visitado os cinco continentes que se vão mantendo à tona das águas com cada vez mais dificuldade . A Arca de Noé já foi uma imagem mais difícil de visualizar e os "animais" já cá estão todos. Já passeei estes pés por alguns países da Europa e outros fora dela. Tudo isto para dizer que à falta de oportunidades de viajar por esses continentes, vou tentando meter conversa com pessoas originárias de países distantes e ainda por desbravar pelos meus pés. Foi assim que conheci no Verão passado em plena Vila de Lagos, um casal de australianos que percorria o mundo há dois anos de mochila às costas e que julgava já estar em Espanha . Conheci ainda vários paquistaneses, que se julgam cupidos quando interrompem os jantares românticos estendendo umas coisas murchas com caule, muitos espinhos e poucas pétalas que no Paquistão e estranhamente, também aqui se dão pelo nome de rosas. De romenos, ucranianos e moldavos, já lhes conheço a geografia e a biografia - todos são doutores lá na terrinha, deixaram pais, mães e filhos doentes e por cá aguardam trabalho no entretanto de peditórios e bebedeiras. Os mongóis que conheci são verdadeiros descendentes dos hunos, bizarros, sorridentes e hospitaleiros mesmo em país alheio.
E hoje não escrevo mais nada porque às seis da manhã tenho de estar na fila, à porta do Centro de Saúde para marcar uma consulta de clínica geral para a minha bisavó. Ali não me parece que vá conhecer ninguém de outro continente. Por ali estão todos tão murchos como as rosas do paquistanês. São todos portugueses, suburbanos e não sei se perdem tempo olhando o mapa, mas duvido. Vou para a fila na esperança de encontrar um lusitano de uma terrinha escondida no meu mapa.

------------------------------------------------------------------------------------------------- 24/10/2003


Cromo a três dimensões.
É todo ele um belo exemplar de malandrice - Dinis de seu nome - diplomado nos cafés da zona, com mestrado nas discotecas portuenses. Pouco mais de metro e meio de altura recoberto de um vasto tecido adiposo, algum pelo louro, íris azulada, caminhar balanceado e pés fazendo ângulo de 45 graus. É natural de uma terra onde as únicas filas de trânsito são as do gado quando regressa ao cair do dia. Contam as boas línguas que na sua longínqua juventude era dado a galhofas das quais raramente se saía mal. Corpulento, mas de cérebro ainda por calibrar, chegou a ser observado a contar carcaças de trigo que se encontravam num cesto, cerca de 400, sem as remover!!! Hoje é um hipocondríaco da mais fina linhagem, encontrando-se frequentemente nas salas de espera dos mais reles Centros de Saúde do distrito. Coleciona a gota, bicos de papagaio, dermatoses, calos, gases , encafalopatia espongiforme e afins. Na radiologia dizem que o conhecem melhor por dentro do que escondido nas nóveis indumentárias adquiridas no chiquérrimo bazar itinerante marroquino. Numa segunda-feira já distante, à hora do costume, tomou o transporte público para o Porto. Como o sol aínda não aparecera no horizonte, retomou o sono interrompido pela necessidade de se levantar cedo. Resolveu então descalçar-se; eram pouco mais que uma dúzia os companheiros de viagem; menos de duas horas para chegar ao destino. Dinis atracou profundamente no sono. A cada travagem que o motorista fazia, mais se afastavam os sapatos, do dono. Na chapa lisa e zincada escorregavam doce e silenciosamente...O cromo roncava a toda a largura da Auto-Mondinense. Aos poucos a freguesia ía crescendo e as travagens também. Alguns sorrisos indiscretos e olhares tolerantes. Fim da linha - Porto 8h30. Um imenso nevoeiro. O motorista teve que o acordar. O derradeiro passageiro, inconformado, furioso e irado, não tinha de quem desconfiar. Fez-se ao caminho em meias amarelas, da Batalha à Avenida dos Aliados." Puta que paríu estes ladrões, aqueles de verniz com fivela dourada tinham apenas dois dias! "E à porta da Beleza-Teresinha aguardou pelas nove no relógio da Câmara Municipal na esperança de que trezentos escudos o calçassem. Não havia maneira de esconder aqueles terminais 36 cor de gema de galinha caseira. Dinis recusou o último gesto caritativo da sua vida quando um indigente lhe estendeu um saco plástico contendo uns chinelos de meter o dedo. O cromo ficou sem entender que a necessidade partilha-se, a esperteza é que não!


----------------------------------------------------------------------------------- 19/10/2003


POSTAIS PORTUENSES
O Sr. Tabau, tripeiro, bigodinho,óculos de massa, larga a Dona Toninha na porta da Efacec com sua lancheira e segue conduzindo o Ford Taunus de 78 para o escritório da seguradora onde trabalha há 24 anos . Passa 2 horas por dia na Circunvalação e arrabaldes,onde berra, insulta, gesticula, deixando o asfalto escarrado a cada semáforo. Atrás de si um nauseabundo odor a chumbo. Arrasa de asno a quem compara o seu velho bólide às modernas incineradoras. Ouve a TSF e considera-se culto. Chega cansado ao trabalho e por isso tem de fazer uma pausa para o café com cheirinho e A Bola ainda antes de começar. Tem baixa produtividade mas não admite aposentar-se para não perder regalias sociais da empresa; diz-se infeliz porque a prole anda no ecstasy e nos shots. Recupera alguma da sua felicidade batendo na mulher mas já não o faz aos filhos porque estão maiores e piores do que ele. Gostaria de comer a Salette da Contabilidade (que em tempos quis ser cabeleireira mas, tendo descoberto recentemente a sua vocação artística, quer entrar na Academia de Estrelas), mas a Salette não deixa porque o bigode pica e a barriga do gajo não é nada anatómica. Quando se cruza com o Director, invariavelmente o sussurra de cabrão. Nunca lhe perdoará o dia em que foi apanhado na retrete privada do chefe limpando o cú à circular interna do serviço na qual se apelava à pontualidade e contenção nos gastos, impregnado as instalações de um fedor horrível que se instalou durante horas. A perna esquerda recuada da sua secretária está calçada com um livro de bolso; um prontuário ortográfico, ao qual não soube dar melhor uso. Na primeira gaveta, logo em cima, está a edição bilingue de uma revista hardcore, onde uma russita, com duas bombas melhores que as colega da Contabilidade, o fita logo que deita mão ao puxador. "O cabrão não tem aparecido estes dias....estará em Lisboa a tratar de assuntos da empresa? O chulo terá levado a mula que se faz passar por esposa e que começou por limpar as escadas aqui na empresa? Acabou limpando o lorpa." Claro que o senhor Tabau odeia o chefe e por isso vai sair hoje mais cedo ou não fosse habilidade sua controlar os passos do Director. Vai dar uma cantada à telefonista, não por que a queira trocar pela Salette ou pela mulata que está pendurada no calendário que esconde no armário onde joga uma gabardina comida pelo sol, mas porque sabe que a fulana vende um americano ao garrafão que é uma pomada como há muito não se vê. Lá pelas quatro da tardinha já estará em casa moendo a paciência à Dona Toninha para lhe fazer pró lanche umas isquitas de chouriço com salsa e cebola. Esperemos que os ingredientes estejam todos pela despensa para que hoje não seja dia de rebaptizar as sogras lá por casa. Ao serão dará umas roncadas à hora das notícias, perdeu a motivação para ouvir ministros, novas detenções, índices de preços aos consumidores ou as últimas guerras dos futebóis e para mais são trivialidades escutadas na TSF ao longo do dia. Invariavelmente levantar-se-à daquele buraco escavado pelo bom uso, género sepultura de paquiderme, naquilo que outrora se chamava sofá, de olhos semi-cerrados coçará longamente as virilhas e fará o percurso de sempre até aos lençóis. A notícia da TIME não lhe trará insónias esta noite pois vai lamber-se com uma viagem até Bragança, por trás (e pela frente) dos montes da sua perdição.

---------------------------------------------------------------------------------- 15/10/2003


...a mão que embala o berço, é a mão que governa o mundo...
aqui os heróis valem o tempo do nosso silêncio - a cada instante da nossa curiosidade outros gigantes se erguem e nos acolhem até novo silêncio. Domingo é esse dia. Dia da leitura, da contemplação, dos projectos que vão mirrando semana fora. É o dia dos vultos, dos heróis e dos vilões, das descobertas e dos desencantos. Dia das mães, dos filhos, dos bastardos, dos renegados... Somatório de horas que nos escapam, das horas que nunca chegam, que nunca restam, que afinal existem - é domingo ! Lembramos as mães e as mãos, os aromas de cozinha ou as palavras trocadas em volta de um almoço que nunca tinha fim. Assim nos governaram e assim fizemos nossos heróis; são pedaços de domingo recordados a cada novo. Encurtam-se as horas, os dias, os anos. De quantos domingos nos fizemos?


 -------------------------------------------------------------------------------- 12/10/2003

Ó Senhor Primeiro !
Escutei hoje na praça que isto está pior que fio-dental;
na fila da carreira, que o passe social vai ter de dar para a vizinhança toda lá da rua;
no barbeiro, que nem bochechas já temos para dar gozo à lâmina;
nos Correios, que na taxa moderadora nos levaram a aderência do cuspo;
na TSF, que abriram excepção à Lei prós garotos ajudarem os pais ;
na homilia, que nos cobrarão o pão ázimo;
ao carteiro, que pagaremos o frete à grama;
ao gato cá dos muros que nem espinhas jogamos ao lixo;
ao PSP que o fio-do-norte substitui as algemas;
à porta da escola, que não aguentam o peso do futuro;
ao sarnento da freguesia que nem restos juntamos ao lixo;
ao anjo da guarda, que se aposenta compulsivamente por extinção dos desígnios que o justificavam!
Senhor Primeiro, depois disto tudo, por favor seja o primeiro....!


 ---------------------------------------------------------------------------------- 07/10/2003

Ao pé de Marte

Finjo ignorar Marte aqui brilhante, colada à vidraça.
De que me vale calcular trajectórias, elípticas, saber matérias, compostos... O império da sedução está aqui onde se me arrastam os pés. Pois que rode Geia que dela não nos roubam o pouso. E demais, já viram como é bom este mirante?



--------------------------------------------------------------------------------- 26/19/2003


Faltam palavras neste silêncio onde o legado granítico do primeiro homónimo nos fez bravos. Acabam-se os discursos de fé e das capitais que não conheço ordenam rumos que não confio.
Sinto o silêncio que se acaba, nos peitos em desejo de romper,
apagar em chamas a miséria que um único estandarte nos fez crer.
Me ergo em ravinas de migalhas, estendo o olhar sem horizonte,
chamo pelo Outro que negou a palavra à terra que criou.
Nada de Afonsos nem de Infantes, nada de Brasis, coroas reais ou líderes de turbante,

 ficam cifras sem produtos, somam zero à glória, herdamos o nada (como dantes).


--------------------------------------------------------------------------------- 26/09/2003

E na mais inconsequente das oportunidades ele se criou. Não entendi o desejo.
Falar, rasurar, alinhavar, parlamentar? Sei lá...saberei ???
Depois se vê, sim. E quem quererá ver, ler?
 Pois, tudo isto poderá ser inócuo e apenas ficar o desejo de ocupar espaço.

 E ele há tanto.....

 ------------------------------------------------------------------------------ 26/10/2003

O regime do discurso.
Por mais que devasse os teoremas dos mais doutos bastardos da lusa língua, não entendo a razão dos ilustres neófitos da desgraça. O discurso do regime apela ao sistema da mudança. Qual mudança? Que mudou nas nossas vidas que não fosse o enorme talento em suportar os novos gestores de uma velha coisa pública? Pois então que nasça a quarta, a sexta, a nona República e que lhe chamem o que entenderem. Que seja oligarquia, dinastia, matriarcado ou terra de pecado. Seja este original, mas que nunca nos obriguem a ser politicamente cordatos, cordeiros ou submissos. Irreverentes, plebeus, filhos de puta ou eunucos, sejamos tudo quanto pudermos com a dignidade de quem viveu sem pedir para tolerar.


  ------------------------------------------------------------------------------- 26/09/2003